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Entrevista: Tatiana Belinky

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Tantas palavras, tantas histórias...

 


Tatiana Belinky recebeu Na Ponta do Lápis na casa em que vive há mais de cinquenta anos, no bairro do Pacaembu, em São Paulo. Sem esperar a primeira pergunta, abriu seu baú de histórias. Desde os 10 anos no Brasil, essa brasileira nascida na Rússia há noventa anos falou de sua relação com a palavra, com a escrita, com o aprender, com as crianças, com os idiomas – ela fala seis – e, lógico, com as histórias. A escritora foi respondendo às perguntas como quem narra uma história, deixando os entrevistadores a imaginar paisagens da Letônia, do Rio de Janeiro e de São Paulo de oitenta anos atrás. Sem falar das brincadeiras, jogos de palavras e outros encantamentos também presentes nos livros que ela escreveu ou traduziu. Conheça então um pouco da vida e das opiniões de uma das mais queridas autoras de histórias infantis do país.

 

 

 

Luiz Henrique Gurgel

 

 

Como foi sua chegada ao Brasil?

Tatiana – Nasci em Petrogrado, atual São Petesburgo, na Rússia, em 18 de março de 1919. Meus pais eram da Letônia, filhos de gente abastada. Meus avôs eram madeireiros, exportavam pinho-de-riga, madeira vendida para o mundo inteiro. Mas, em 1929, as dificuldades econômicas e políticas se agravaram e a minha família resolveu emigrar. Viemos para o Brasil sem nada. Minha mãe era cirurgiã-dentista e veio com seus instrumentos para trabalhar. Eu trazia um livro e uma correntinha de ouro com uma medalhinha de Moisés barbudo, que eu pensava ser meu avô. O livro era de contos do grande escritor [Ivan] Turguenev. Tenho esse livro até hoje, está se desmanchando.

A primeira paixão, no Brasil, veio antes de o navio entrar no porto. Foi a visão panorâmica do Rio de Janeiro: Copacabana, Pão de Açúcar, não havia a estátua [do Cristo Redentor]. Tudo natural, lindo! Eu conhecia o mar Báltico [na Letônia], bonito, com suas dunas epinheirais. Mas o Rio de Janeiro era completamente diferente, de cair o queixo. Ficamos uma semana, depois voltamos para o navio, que seguiu até Santos, onde pegamos o trem montanha acima, passando por túneis, que eu nunca tinha visto. Chegamos a São Paulo. Aqui havia pontes que não tinham água embaixo, eu achava muito estranho. Onde morávamos, em Riga [capital da Letônia], da nossa janela víamos o rio por onde saía o pinho-de- -riga, nas barcas. Havia rios grandes e pontes. E aqui tinha pontes que não tinham água embaixo. Era o Viaduto do Chá, todo iluminado à noite. Em certa época do ano as mariposas eram atraídas para aquela iluminação, queimavam e atapetavam o chão. A gente pisava, eu me recordo, até crepitava. Imagine, para uma criança, como tudo isso foi curioso, inesquecível.

 

E os livros? Sempre estiveram presentes em sua vida?

Tatiana – Na minha casa todo mundo lia. Nunca vi meu avô e minha avó sem livro na mão. Jamais me vi sem livros. Aos 4 anos eu já sabia ler, primeiro em russo, depois em alemão. Meu pai lia e contava histórias, me oferecia cubos de letras. Brinquei muito com eles e logo comecei a perguntar: “O que é isso?”. Meu pai dizia: “B, A, juntando dá BA”. Era fascinante. Comecei a ler cedo. Lia todos os meus livros. Logo comecei a escrever também. Mas era canhota e espelhava as letras que eu conhecia, automaticamente. E meu pai nunca disse: “Não pode!”. Ele só disse para tentar com a outra mão. E eu tentei. Assim fiquei ambidestra. Mas escrevo com a direita até hoje, com a letra igual àquela da infância. As editoras aceitam meu manuscrito. Elas têm digitadores, sabem ler o que escrevo, e se não entendem alguma coisa me telefonam perguntando.

 

E o encantamento com a leitura?

Tatiana – Desde criança meus pais me proporcionaram muito palco, muito teatro, muitos livros, muita poesia. Era leitura, ópera, balé, opereta, concerto de música, orquestras. Então eu já tinha uma bagagem muito importante para a leitura: a estética, a ética, o humor, a poesia.

Como disse aquele professor de literatura francês, Daniel Pennac: “O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo amar… o verbo sonhar…” (Pennac, Como um romance, 1996, p. 11). Há coisas que não se manda fazer, elas acontecem. Leitura não é tarefa, castigo. A leitura tem que ser prazer. Nos dez direitos do leitor, Pennac afirma que ele tem o direito de não ler se não quiser; de ler de trás para diante; de começar do meio, e por aí vai. O leitor é livre. Você lê para você mesmo, para seu divertimento, para sua emoção, não tem obrigação de coisa nenhuma. Você começa a ler e vai logo perceber que é bom. Uma história bem contada pode fazer alguém chorar, rir, prender o leitor.

 

E como foi seu contato com a língua portuguesa?

Tatiana – A minha infância terminou em São Paulo. Quando cheguei aqui já era mocinha, pré-adolescente, e eu falava três línguas: o russo, o alemão e o letão. O português é a minha quarta língua. Aqui aprendi português e logo depois o inglês e o francês, na escola. E quem já fala três línguas pega de letra, de ouvido, se adapta logo e não tem medo, nem bloqueio para a coisa. Não acha que é difícil falar outra língua.

Logo comecei a ler. Por estranho que pareça, o primeiro texto em português que caiu na minha mão foi de Monteiro Lobato. E eu nem sabia quem era, nem sabia que existia. Não era um livro. Era um folheto do Laboratório Fontoura sobre um medicamento. Monteiro Lobato escreveu um conto sobre aquele caipira, o Jeca Tatuzinho, que ficava doente porque andava descalço. Era uma história muito engraçada. O caipira, o Jeca Tatuzinho, ficou tão convencido do problema que até nas galinhas ele punha botina. E quando fui para a televisão fiz a adaptação desse conto. Nessa história a galinha andava de botina.

 

E depois do folheto do laboratório?

Tatiana – Aí foi um livro atrás do outro, na biblioteca. A primeira escola que frequentei aqui era alemã. Meus pais achavam que era bom, eu sabia alemão, não ia perder a língua, e seria mais fácil antes de aprender o português. Eu gostei da biblioteca da escola. Li bons romances, poesia. Mas não gostei da escola. Eles batiam nas crianças, davam tapa. Que negócio de dar tapa na cara de criança quando fazia alguma coisa que não devia? E meu irmãozinho, três anos mais novo que eu, estava aprendendo, era a primeira escola dele. E não sei o que ele fez de errado, algum pecado do tipo escrever com lápis em vez de tinta, qualquer coisa assim, e a professora o chamou e deu-lhe um tapa. No recreio, ele me contou, chorando. Eu disse: “Ah, ela fez? Amanhã nós não estaremos aqui. Espera a próxima aula, você pega as suas coisas, nós vamos para casa e não voltamos mais”. Dito e feito. Contei para o meu pai e para a minha mãe, que ficaram de cabelo em pé. Eles nunca levantavam a mão para a gente. A voz, sim, porque a minha mãe tinha uma voz poderosa, mas meu pai era todo suave. Não voltamos no dia seguinte e logo depois fomos parar na escola americana, no Mackenzie, que era um paraíso perto da outra. A primeira coisa que eu fiz quando cheguei lá foi correr para a biblioteca. Era enorme, um prédio de três andares. Entrei, escolhi dois livros para ler em casa. A bibliotecária não deixou: “Não são livros de criança”. Eu era criança, mas um tipo de criança que lê. “Isso não é bom para você, é impróprio!” Aí eu disse: “Se é impróprio, como é que está numa escola?”. “Não é para menina”, ela respondeu. “Ah, tem livro de menino e de menina? Isso eu não sabia.” E eu só pude tirar livros de outra estante. Peguei outros, levei para casa e odiei: eram muito bobos, muito primários para mim. Em casa me queixei ao meu pai. Ele era o meu confidente: “Fui obrigada a tirar livro numa estante de bobagens, o que eu faço?”. Meu papai disse: “Você não faz, faço eu”. Sentou-se e escreveu, em perfeito português, um bilhete para a bibliotecária e para a diretora: “Minha filha, Tatiana, está autorizada a escolher e levar qualquer livro da biblioteca que ela queira”. Foi um escândalo: “Como deixa a menina pegar livros impróprios?”. A última palavra foi do pai, ninguém subestimou. Aprendi português assim. Estou falando a língua desde 1929.

 

A senhora tem dito que aprender é emocionante. O que isso significa?

Tatiana – Uma vez, há muitos anos, uma grande professora de literatura da Universidade de São Paulo, Nelly Novaes Coelho, numa palestra que eu estava fazendo, me perguntou: “Tatiana, por que você acha que as crianças não gostam de estudar?”. Eu disse: “Porque elas não querem estudar, elas querem aprender, que é uma coisa muito diferente”. Não é estudando que você aprende. A criança quer aprender o mundo. Com ouvidos, olhos, mãos, com tudo. Aprender, aprender, aprender. Ela não quer ficar decorando. Isso é horrível. Eu vou contar uma historinha: “Quando meu neto mais velho tinha 4 anos – hoje tem 44 –, eu dei de presente a ele uns cubinhos com letras, como o meu pai deu para mim. Pensei, vamos ver o que é que ele faz. Eu não disse nada, apenas ofereci o brinquedo. No terceiro dia ele já estava perguntando o que era ba, be, bu. Logo ele estava formando palavrinhas: babá, nenê, papa, titia. Coisas simples. Depois de um mês, mais ou menos, eu quis fazer um teste. No tapete eu formei uma palavra grande com aqueles cubinhos. Várias sílabas, uma palavra comprida: Tatiana. “Roninho, você consegue ler esta palavra?” Eu não disse que era meu nome. Ele olhou a palavra, olhou para mim, apontou com o dedinho e leu: vovó.

 

Como nascem suas histórias?

Tatiana – As crianças perguntam de onde tiro inspiração para tantas histórias e versinhos. Eu digo: “Olha, inspiração eu tiro do ar [Tatiana inspira e solta o ar pelo nariz]. Porém, as ideias para escrever e contar alguma coisa, eu tiro só olhando para vocês.” Eu já tenho várias histórias na cabeça. Eu tenho um livro chamado Diversidade, que as crianças gostam muito, é todo em versinhos: “Um, preguiçoso/ Outro, animado/Um é falante/ Outro é calado/ Olho redondo/ Olho puxado/ Nariz pontudo/Ou arrebitado”. Fala das diferenças, cabelo loiro, cabelo escuro, cabelo crespo, cabelo liso, nariz arrebitado, nariz achatado. Enfim, todas as diferenças. E no final eu dou a moral da história: tudo é bonito e diferente.

Eu invento algumas coisas, mas, principalmente, eu observo muito. Em noventa anos acumulei muito assunto e tenho boa memória. Qualquer coisa me lembra outra. Então, não fico aí procurando palavras no bolso. Estão prontas, rápidas. Eu funciono assim. Eu penso depressa, falo depressa, leio depressa, reajo depressa.

 

Em 1952, a senhora e seu marido, Júlio Gouveia, fizeram a primeira adaptação para a televisão da obra de Monteiro Lobato. Como foi essa experiência?

Tatiana – Juntou a fome com a vontade de comer. Eu e Júlio gostávamos das mesmas coisas – teatro, música – e ele era admirador de Monteiro Lobato, como eu. Costumo dizer que nosso casamento foi a união de duas estantes: a dele com a minha. Ele também lia muito. Era poeta. Escrevia muito bem. Era feliz! Então tínhamos muito que conversar. E nosso namoro foi rápido. Comecei a me envolver com o Júlio, que era médico, psiquiatra e educador, e nos casamos em 1940. Monteiro Lobato não chegou a ver o nosso trabalho. Ele morreu em 1948. Antes, nós o conhecemos oficialmente. Estivemos na casa dele, ele esteve na nossa casa. Quem nos deu a autorização para adaptar a obra dele para a televisão – que era uma novidade – foi a dona Purezinha, a viúva, que nos conhecia, sabia quem éramos. Tentamos e deu certo. O Sítio do Picapau Amarelo, com minha adaptação e realização do Júlio, ficou doze anos no ar, sem interrupção. Era ao vivo, como teatro mesmo, transmitido pela televisão com três câmeras. Tinha afastamento, aproximação, recurso de cinema. Dava para fazer coisas que não eram possíveis no palco. Agora dá para fazer qualquer coisa.

 

Como os livros podem concorrer com a TV, a internet, o videogame?

Tatiana – Tudo concorre e não concorre. É preciso dar oportunidade para as crianças porque tem lugar para tudo. Sempre chegam coisas novas, porque coisas boas não acontecem somente hoje. Eu li um artigo que dizia que a televisão atrapalhava um pouco, mas a internet não, já que lá as crianças escrevem e leem. Podem até escrever errado, mas escrevem e leem. Também vale lembrar que nem todos são iguais e gostam das mesmas coisas. Na mesma casa nós éramos três irmãos muito diferentes um do outro. Aliás, um dos meus filhos, quando tinha 8 anos, perguntou: “Você acha justo e democrático” – com essas palavras – “tratar de modo igual filhos que não são iguais?”.

 

Quando cria suas histórias a senhora reescreve muito o texto?

Tatiana – Eu escrevo espontaneamente. Quando tenho uma ideia, escrevo como se escrevesse uma carta, um conto. Falo, as coisas vêm fluindo sozinhas e a mão escreve. Aí guardo o texto na gaveta para pegar dali a uma semana. Então leio o que escrevi, vejo se acho bom, faço mudanças. Como diz o escritor russo Tchekhov, o texto, o teatro não se escreve, se reescreve. Sempre pode melhorar ou cortar. Eu guardo e releio. Ao reler, posso dizer isso com menos palavras, de um jeito melhor, mais compreensivo. Assim faço a minha apreciação. Então vou ao meu primeiro crítico, antigamente era o meu marido e ele não dava mole. Se não gostava, dizia: “Eu não gostei disso, está demais, mas isso não está certo, não concordo”. Eu dizia: “Se você não concorda, vamos discutir”.

Hoje, meu crítico número 1 é meu filho Ricardo. Ele é escritor, tradutor e editor. Ele também não brinca em serviço. Se gosta, gosta; se não gosta, fala, corrige. Quando eu acho que está mais ou menos no ponto, maduro, mando para meu editor e espero.

 

Nossos leitores são professores de escolas públicas. Trabalham com crianças e jovens o ensino da leitura e da escrita. Que recomendações a senhora pode dar a esses educadores?

Tatiana – Diria: quer escrever? Isso eu falo também para as crianças que me perguntam como fazer para ser um escritor. Para começar, tem que aprender a escrever fluente. O importante é abrir os olhos, os ouvidos; sentir cheiro, prestar atenção em tudo. Não olhar para as coisas sem enxergá-las. Porque é isso que acontece com as pessoas: ouvem alguma coisa e não escutam nada. Ouvir e escutar, ver e enxergar são coisas diferentes. Tem que saber a diferença no sentido das palavras e absorver tudo em volta. Absorver e observar. Olha como dá para brincar com palavras, estou sempre brincando. É preciso prestar muita atenção, ser curioso, pensar no que você viu. A vida é tão instigante, o cotidiano, o que acontece à sua volta todos os dias. Tudo é interessante! Se você prestar atenção, usar a sua cabeça, ouvidos, olhos, dá até para um dia abrir a boca e botar no trombone, se for preciso. Escrever é falar por escrito. Desenvolver o estilo vem mais tarde. De tanto ler você aprende quanta coisa pode fazer com sua majestade a palavra; sem ela, a gente não é gente.

 

Revista Na Ponta do Lápis
Ano V
Número 12
Dezembro de 2009

 

 


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