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Uma experiência humanizadora

Uma experiência humanizadora

Assunto: Memória
Autor(a): Ecléa Bosi, NPL nº 2

 

"Uma experiência humanizadora"

 


Assim a professora Ecléa Bosi, do Instituto de Psicologia da USP, define as atividades de crianças com histórias e memórias de idosos. Ela é autora, entre outros, de Memória e sociedade: lembranças de velhos, um dos mais importantes trabalhos sobre o gênero, incluído pelo Ministério da Educação entre as cem obras sobre o Brasil que devem compor as Bibliotecas Escolares Públicas. Desde menina sempre gostou de ler e escutar histórias. Traduziu autores como Leopardi, Ungaretti, Garcia Lorca e Rosalia de Castro. Ela chama atenção para o compromisso que se assume com alguém quando escutamos e registramos sua história de vida: “o escutador torna-se responsável eticamente pela narrativa e pelo narrador, não pode abandoná-lo”. Atualmente coordena o programa Universidade Aberta à Terceira Idade, na mesma USP.
Em sua sala, no Instituto de Psicologia, recebeu nossa equipe para a entrevista.

 

 

 

 

Luiz Henrique Gurgel, Maria Antonieta de Oliveira e Cida Laginestra.

 

 

Como foi seu envolvimento com a pesquisa de memória?

Ecléa - Quando eu era criança havia uma invasão menor da mídia dentro das casas, pouca televisão. A grande distração da criança, além das brincadeiras de rua, era escutar histórias dos pais e avós. Caminhávamos muito em São Paulo. Eu morava perto da rua Oscar Freire e estudava nos Campos Elíseos, ia e voltava a pé. Nessas caminhadas, meus companheirinhos pediam que eu contasse histórias, para abreviar o tempo. Quando escrevi Memória e sociedade: lembranças de velhos, uma tese defendida em 1978, começou em toda parte uma onda de pesquisas sobre memória e esses pesquisadores diziam haver se inspirado nesse trabalho. Penso que a inspiração veio para mim e para os outros pesquisadores da necessidade de um encontro com o passado mais próximo de nosso tempo.

 

Como pensar a história a partir da memória de velhos?

Ecléa - A memória de velhos é diferente da história oficial. Os depoimentos são cheios de lacunas, diferentes da história que se lê nos livros. Você ouve um depoimento de alguém que assistiu a um desastre, a narrativa dessa testemunha é uma narrativa em que há susto, emoção. Ainda que não seja perfeitamente objetiva, traz alguma coisa profundamente verdadeira: a emoção que o desastre desencadeou e que atravessa a narrativa. Em 1910, o cometa Halley atravessou o céu de São Paulo. Entrevistei pessoas da época e ouvi maneiras diferentes de falar da passagem do cometa. Qual a verdadeira? Não nos cabe dizer. Uma das entrevistadas, a dona Rizoleta, me disse “Ah! O cometa Halley. Eu vi sim, foi no dia em que o Papa morreu e a terra tremeu.” Sabe-se que nem o Papa tinha morrido, nem a terra tremido. Acontece que nenhuma outra narrativa mostra a emoção que se sentiu, pessoas se atiraram do viaduto achando que era o fim do mundo, houve uma convulsão social tão grande em São Paulo, que só essa narrativa ingênua de uma pessoa iletrada, embora sábia como dona Rizoleta, pudesse dar idéia do que tenha sido.

 

Qual a função social da memória? De que forma o trabalho com a memória pode colaborar para o enfrentamento dos problemas atuais?

Ecléa - Depoimentos que você colhe não são para serem arquivados. Todo depoimento existe para transformar a cidade em que ele floresceu. Escutar uma narrativa desencadeia em você, ouvinte, compromisso com o narrador. Mais ainda, um compromisso com a própria cidade em que a narrativa floresceu. Você é responsável. Por exemplo, no meu caso, eu entrevisto pessoas muito idosas e sensíveis às transformações urbanas. Isso desencadeia um compromisso com o plano diretor da cidade. Em uma pesquisa que fiz, verifiquei, por exemplo, que a maioria dos idosos acidentados na seção de ortopedia do Hospital das Clínicas de São Paulo não era um caso de médico, mas caso de advogado, por causa das calçadas da cidade, das casas populares mal construídas...

 

Todas as entrevistas e depoimentos são aproveitados? Que critérios a senhora usa para selecionar os melhores depoimentos?

Ecléa - Não, nem todos são aproveitados. Ou por falhas técnicas ou acidentes biográficos do idoso, que não pode continuar. Não existe uma narrativa que seja completa. Em certo momento o ouvinte pára e o narrador pára, mas a história continua tanto na cabeça do ouvinte como na cabeça do narrador. A história se completa em nós mesmos e para você registrar uma história de vida seria preciso um escutador infinito. Todos os depoimentos são bons e merecem o mesmo respeito. Eles não são motivos de nostalgia, mas de luta para quem merece escutá-los.

 

Que sugestões e conselhos a senhora daria aos professores que estão trabalhando o gênero memórias?

Ecléa - Essa pergunta me foi feita tantas e tantas vezes, que eu escrevi no livro O tempo vivo da memória um capítulo sobre isso. O estudioso da memória deve ser uma pessoa preparada para isso, não basta que conheça metodologia de pesquisa. Ele precisa compreender o depoimento como um trabalho do idoso, ele não pode registrar sem que o idoso tenha conhecimento da narrativa. Por mais simples que seja, esse idoso tem o direito de reler aquilo que falou e ver se está de acordo. É uma questão ética. Entre todos os conselhos de método que eu dou, o mais importante é a responsabilidade pelo outro, porque dada a natureza da pessoa idosa que faz o depoimento sobre a sua vida, para ela é um ato de amizade; e o escutador tem que responder a esse ato de amizade com outro ato de amizade. Ele se torna responsável eticamente pela narrativa e é um pesquisador diferente dos outros porque também se torna responsável pelo narrador e não pode abandoná-lo, ele tem de visitá-lo. Estamos recebendo um alento da pessoa, as horas, seu tempo de vida, ela está nos dando uma coisa preciosíssima. Somos tão responsáveis por ela quanto um amigo é responsável pelo outro.

 

No Programa Escrevendo o Futuro as crianças são pesquisadores da memória e, orientadas por seus professores, procuram os idosos em suas comunidades, ouvem suas histórias e as reescrevem. Que importância a senhora vê nisso? Como avalia esse tipo de trabalho?

Ecléa - Eu acho que as crianças estão praticando a verdadeira cultura que é a inserção do passado no presente, as pesquisas das crianças são mais humanizadoras. Eu me lembro de uma pesquisa maravilhosa feita pela atriz Lélia Abramo (1911 – 2003). Ela trabalhou na Secretaria de Cultura de São Paulo com a prefeita Luiza Erundina. Foi às escolas públicas municipais e pediu que as crianças falassem sobre seus avós. Eu li as produções. Esse trabalho mostra o cerne do problema social do idoso, embora contado por crianças muito novas. É uma situação que se reproduz nos lares. Deseja-se que o idoso ajude a lavar louça, a tomar conta dos pequenos, faça trabalhos por vezes pesados. Mas se ele quiser dar um conselho para um adolescente sobre comportamento, a escola, a educação e o uso do tempo do neto, ele é convidado a se calar. Do idoso se deseja o braço servil, mas não o conselho. Ele tem experiência, tem memória, discernimento e tudo o que é necessário para dar um conselho. Por isso fazer com que a criança procure o tio idoso, o avô, o velho de asilo que ninguém mais visita e que se sente banido, é uma experiência humanizadora. Embora se fale muito dos direitos da terceira idade, o que acontece é que nós vivemos na época do descartável, do consumo e tal época não é favorável ao oferecimento da memória, da experiência. Fazer com que a criança se volte precocemente para a história oral contada pelos mais velhos é uma experiência das mais importantes. É uma valorização pública do idoso.


Revista Na Ponta do Lápis
Ano I
Número 2
Agosto/setembro de 2005


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