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Aforismo, o gênero pretensioso

Aforismo, o gênero pretensioso

2862_drummond_gde“O corpo da verdade tem um pinta em lugar invisível”

Carlos Drummond de Andrade


A dificuldade de conceituar o gênero aforismo talvez tenha a ver com sua enorme pretensão de conceituar as coisas, afinal, quem é que poderia desejar definir amplos e complexos conceitos através de pequenas sentenças ou parágrafos? A resposta é bastante simples: quase todo mundo. Escritores, filósofos, médicos, economistas, religiosos e atualmente uma enorme quantidade de piadistas, publicitários, twitteiros e microcontistas.

Segundo o Houaiss, aforismo é a “máxima ou sentença que, em poucas palavras, explicita regra ou princípio de alcance moral; apotegma, ditado”. De acordo com esta definição, o aforismo discorre sobre regras ou princípios de alcance moral, ou seja, sobre concepções de mundo e objeto muitas vezes cristalizados pelo uso e pela reprodução irrefletida de discursos. Por exemplo, ao pensarmos no conceito de vingança, é provável que a primeira coisa que nos venha à mente seja: “A vingança é um prato que se come frio”. Esta conceituação popular é um ponto de vista que toma por base o discurso religioso, a máxima bíblica que diz que: “se qualquer te bater na face direita, ofereça-lha também a outra”, que, por sua vez, dialoga[1] com outra lei, o famoso código de Hamurab: “Olho por olho, dente por dente”(lembre-se que isto é um aforismo para nós hoje, mas naquela época era uma lei), escrito na região da Mesopotâmia por volta de 1700 a.c..

O que se conclui a partir deste exemplo é que um aforismo dialoga sumariamente com outros aforismos e que, em face de uma visão absoluta de alguma coisa, nos propõe outra. Esta outra visão, assim como Carlos Drummond de Andrade propõe no título de seu livro de aforismos, é, de certa forma “O Avesso das Coisas”[2]. Segundo ele, em seu prefácio: “São palavras que, de modo canhestro, aspiram a enveredar pelo avesso das coisas, admitindo-se que elas tenham um avesso, nem sempre perceptível mas às vezes curioso ou surpreendente”.

Voltando ao nosso exemplo anterior, vejamos o aforismo que Drummond escreve sob o título Vingança: “Há indivíduos que só perdoam as ofensas depois de se vingarem delas”. Ao contrário dos aforismos vistos anteriormente, esta sentença não carrega a afirmação categórica de uma verdade universal. A construção “Há indivíduos” pressupõe também que não há indivíduos, ou seja, se existem indivíduos que agem desta forma (só perdoam as ofensas depois de se vingarem delas), existem indivíduos que agem de outra forma e, portanto, existe mais de uma possibilidade de atitude diante da mesma questão/sentimento (vingança). Esta desconstrução do conceito de aforismo está na própria sentença criada por Drummond, ele incorpora a uma forma pré-concebida como verdade a ideia de ponto de vista. Já em seu conciso (e preciso) prefácio, ele expõe seus aforismos como “uma” forma de interpretação da realidade, e não como “a” forma de interpretação da realidade: “Assim como os antigos moralistas escreviam máximas, deu-me vontade de escrever o que se poderia chamar de mínimas, ou seja, alguma coisa que, ajustada às limitações do meu engenho, traduzisse um tipo de experiência vivida, que não chega a alcançar a sabedoria mas que, de qualquer modo, é resultado de viver”.

O segundo tipo de aforismo, segundo o Houaiss é o: “texto curto e sucinto, fundamento de um estilo fragmentário e assistemático na escrita filosófica, ger. Relacionado a uma reflexão de natureza prática ou moral.”. Os aforismos filosóficos, recorrentes em autores como Nietzsche e Shopenhauer, são pautados na reflexão, e não na simples reprodução de um sentimento comum representado como verdade absoluta (como acontece com os ditados, por exemplo). Filósofos negativos da realidade procuram desconstruir esses afirmativos categóricos sobre o ser humano, processo que raramente é acompanhado pela construção de uma nova verdade.

O gênero aforismo está e sempre esteve ligado à construção e desconstrução de verdades aparentemente imutáveis referentes ao ser humano. Hoje está muito presente nas redes virtuais, pessoas com muitos seguidores no Twitter provavelmente são bons “aforistas”, pessoas que escrevem frases sintéticas de uma realidade comum com um alto poder de representar e elaborar aquilo que muitos desejam escrever.

Um último aspecto interessante do gênero é sua intersecção com a literatura, primeiro porque muitos autores literários o escrevem, e segundo porque muitos aforismos possuem de fato uma estrutura narrativa. No famoso aforismo de Kafka, por exemplo: “Uma gaiola saiu à procura de um pássaro”, podemos visualizar uma cena com dois personagens, o pássaro e a gaiola. Os sentidos se invertem violenta e perceptivelmente, ao invés da imagem tradicional de um pássaro buscando a liberdade fugindo da gaiola, temos o oposto, a prisão em busca do prisioneiro. Para além de todos os aprofundamentos possíveis no aforismo, é dado que temos em uma pequena frase com oito palavras uma reinterpretação da ideia moderna de liberdade. O que acontece aqui é uma imagem que segue uma lógica narrativa e dialoga com uma ideia prévia de liberdade, a forma usada pelo autor para questionar uma verdade é a criação de um aforismo/microconto.
Talvez possamos encerrar este texto nada aforístico, e, portanto, pouco conclusivo, com um aforismo de Drummond cujo título é “Aforismo”, diz o seguinte:

“O aforismo constitui uma das maiores pretensões da inteligência, a de reger a vida”



[1] A formulação bíblica completa está situada no Evangelho de Jesus, Sermão da montanha: “Ouvistes que foi dito: “olho por olho, dente por dente”. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, ofereça-lhe também a outra (...)”

[2] Livro publicado pela editora Record em 2010, contém dezenas de aforismos em geral muito bem-humorados, organizados em ordem alfabética e selecionados pelo próprio autor.


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