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De olho na prática: Idas e vindas da escrita

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“Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve. Se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve? Por que, realmente, como é que se escreve? que é que se diz? e como dizer? e como que se começa? e que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranquilo? Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo.”

Clarice Lispector. “Como é que se escreve”, in: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, pp. 156-157.


Escrever não é um talento natural. É uma habilidade que pode ser desenvolvida, mas que exige do autor um trabalho artesanal, resultado de sucessivas versões, de muitas idas e vindas.

Na escola, esse processo não é diferente. Talvez seja mais trabalhoso, já que estamos falando de aprendizes. À medida que o aluno autor vai conquistando maior autonomia, sabe o que dizer, como dizer, quais palavras usar, além de analisar e corrigir o que foi dito.

O ideal é que o estudante vivencie a escrita como prática social; nesse contexto, a reescrita passa a fazer parte do processo de produção do texto. Assim, o aluno autor aprende a ordenar as informações, identificar o que precisa contar ou explicar melhor, decidir o que cortar, substituir, refinar, para que a escrita atenda o leitor real, o suporte1 e o local de circulação social do texto.


Por onde começar?


O primeiro passo é seu, professor. É importante planejar os procedimentos antes de iniciar a proposta de reescrita do texto em sala de aula:

Descubra os conhecimentos que o aluno tem de mundo, de língua, de leitura, para compreender de que lugar ele fala.

Leia e analise a escrita dos alunos para diagnosticar os saberes e as dificuldades recorrentes. Observe:

– as peculiaridades do gênero;
– a estrutura do texto;
– a coerência no desenvolvimento das ideias;
– se o nível de informação corresponde às características do leitor pretendido;
– os recursos de coesão utilizados;
– se a variedade linguística e o registro escolhido são adequados ao tema, ao objetivo e à situação interlocutiva;
– a ortografia;
– a pontuação.

Elabore uma lista dos problemas mais comuns da turma, para ajustar as atividades de intervenção.

• Planeje a forma de apresentar o roteiro de revisão2, incluindo os aspectos a serem observados.


A vez e a voz do aluno-autor

Professor, lembre-se de que é fundamental preservar a voz do autor, o sentido estético e a força semântica do texto para que se possa atingir a finalidade a que se propõe.


Na sala de aula


• Retome com os alunos a situação de comunicação: para quem escrevo, com que objetivo, sobre o que escrevo, qual o suporte e em que espaço a produção irá circular;

• Faça perguntas que os levem a refletir sobre o texto;

• Encoraje os alunos a achar um jeito próprio de dizer, a encontrar o tom (informal, irônico, crítico, formal...) que deseja imprimir à escrita; 

• Ajude-os a ocupar o lugar de leitor do próprio texto ou de um leitor presumido; 

• Não desanime! É possível dividir a tarefa em etapas com objetivos bem delimitados e desenvolver um trabalho colaborativo propondo questões que ajudem os alunos a ver e rever o texto. Anime-os com várias atividades coletivas de reescrita antes de propor o trabalho em pequenos grupos ou duplas e a autocorreção.


Como intervir?


• Inicie a conversa destacando as qualidades do texto;

• Mostre os principais problemas e dê indícios que ajudem o aluno a identificá-los e a refletir sobre eles;

• Faça perguntas que orientem, sem sobrepor ou impor, o que pode ser feito; 

• Organize anotações que ajudem o aluno a retomar o texto depois da conversa. Estabeleça um diálogo: escreva bilhetes, faça perguntas, apresente dados, ofereça elementos que direcionem o trabalho de revisão.


Olhando o texto – algumas possibilidades


Dois exemplos – um poema e uma crônica – foram escolhidos para ilustrar possíveis intervenções.


O texto revela que o aluno-poeta

• sabe que o poema tem estrutura diferente da prosa;

• usa estrofes, versos, organizados em quadras;

• traz para o poema muito ritmo, cadência e musicalidade;

• caracteriza a cidade de um jeito carinhoso (pequena, com povo gentil e hospitaleiro);

• descreve as belezas naturais do lugar (pássaros, rios e cachoeiras de águas limpas, onde se pode brincar e pescar), um convite convincente ao leitor;

• manifesta tensão entre o que dizer (conteúdo) e o jeito de dizer (forma);

• apoia-se na rima para compor os versos: lindeza/ gentileza/ natureza/ beleza/ tirolesa; comigo/ brigo;

• usa a 3ª pessoa do singular para falar da cidade: “Ela fica no interior”.



Intervenções do professor que contribuem para a poeticidade do texto

Título

• Do que trata o poema? Você acha que o título do poema desperta a curiosidade do leitor? O tema abordado pelo autor poderá ser título do texto?

• É interessante escolher o título depois de escrito o texto, pois as ideias apresentadas poderão fornecer pistas para um título mais instigante.


Rima


• Que outras palavras poderão rimar no texto? Percebe-se que o aluno está preocupado com a sonoridade (lindeza/ gentileza/ natureza/ beleza/ tirolesa; comigo/ brigo), mas não investe na qualidade das rimas nem na alimentação temática. Pode-se avançar propondo um exercício em que os alunos tenham de recorrer ao dicionário para descobrir outras palavras que rimem com as anteriores usadas no texto, ou mesmo pedindo sugestões à classe.

• Se você quer que seu leitor aprecie a beleza da cidade, que outros recursos poderá utilizar? O que você acha mais importante: dizer que sua cidade é bela ou fazer com que o leitor encontre essa beleza naquilo que você vai apresentar a ele?

• Qual o nome do rio que corta a cidade? E a cachoeira tem nome? Como você percebe que o seu povo é gentil? Que comportamento revela alguém que tem gentileza? Recebe bem os que chegam de fora? Convive bem com seus vizinhos e conterrâneos?

• Em sua cidade costuma-se festejar alguma coisa? Há festa de padroeiro ou outra comemoração popular (congada, folia de reis, cavalgada, rodeio...)?

• Os dois primeiros versos da segunda estrofe precisam provocar a imaginação do leitor. Em vez de “Ela fica no interior/ No meio da natureza”, que outras expressões podem encantar o leitor? Por exemplo: “Ela é como um ninho/ protegida pela natureza;/ fica bem no interior,/ onde tudo é natureza”.

• Na terceira estrofe, além da quebra da sonoridade pela reorganização das rimas, a relação de amizade é manifestada de modo bastante ingênuo. Podese perguntar: “Além do 'darse bem', o que mais fortalece a amizade? Como poderemos saber que alguém é mesmo nosso amigo?”.

Práticas que favorecem a aprendizagem do poema

• Leitura cativante, emocionada, de diferentes poemas, feita, em voz alta, pelo professor.

• Escuta da leitura do seu poema por outros alunos, para que possa ouvir na voz do outro a interpretação do seu verso, sua rima, sua metáfora. É uma forma interessante de reavaliar o poema.

• Gravação, se possível, da leitura (orientada pelo professor) dos alunos. Esse meio faz perceber as palavras, as expressões, o modo de dizer, a identidade desses meninos e meninas.

• Audição do CDROM que acompanha o Caderno Poetas da escola ou recitação poética, jogral, sarau em sala de aula.

• Análise de diversos textos do gênero poético, modelos de referência que ajudam a relembrar as características do gênero e avaliar como os alunos estão utilizando esses elementos na produção deles. Os poemas do Caderno Poetas da escola, da Coletânea de textos, do CD-ROM e os próprios poemas dos alunos são bons recursos para esse estudo.

• Brincadeira com palavras, figuras de linguagem, sons, métrica e ritmo. Instigar, como em um jogo, diversas formas de arrumação possível das palavras até chegar a um arranjo ou a uma forma interessante.

• Alimentação temática, por meio da leitura de poemas, destacando as metáforas encontradas, aquelas que podem inspirar a criação de imagens poéticas e ampliar as possibilidades do que dizer.


O texto revela que o aluno-cronista


• recorta um episódio corriqueiro do cotidiano: jogo de futebol, uma pelada no asfalto;

• usa uma linguagem bem cuidada, informal, leve, quase uma conversa com o leitor;

• utiliza o narrador para descrever a brincadeira, o cenário, os times, o esgotamento dos meninos no jogo;

• narra em tom divertido, aproximando o leitor do texto;

• traz outras vozes para o texto, num breve diálogo dos garotos;

• escolhe palavras com toque poético “brilho nos olhos”, “um segundo de emoção”, “a velha bola”.


Intervenções do professor que possibilitam a melhoria da crônica

Durante a reescrita, caberá ao professor fazer as perguntas e ajudar a turma a negociar os elementos a serem escolhidos entre as sugestões feitas pelos alunos. Apesar de o desenrolar da narrativa prender a atenção do leitor, sentimos falta de algo que cause maior impacto. Algumas orientações poderão ajudar a turma a descobrir o que fazer para dar mais vida à crônica.

• Havia uma liderança maior no time?

• Alguém brigou no jogo? Como isso foi resolvido?

• Havia alguém que era o craque do grupo? Por quê?

• O gol marcado foi comemorado? Havia plateia, torcida?

• De quem era a bola?

• Quanto tempo durou o jogo? Começou pela manhã e estendeu-se até à noite?

• Como os garotos voltaram para a casa deles?

• Qual é o sentimento vivido pelos meninos quando a brincadeira acaba e a rua retoma seu “fluxo” normal?

• Que outras coisas tornam essa rua especial?

O fato inusitado poderá ser uma briga entre os jogadores; a intervenção de um adulto que acaba com a brincadeira; o dono da bola que para de brincar e leva a bola e a alegria embora; um carro que passa em cima da bola e acaba com o jogo; ou uma garota que chega e desperta num dos jogadores a vontade de se exibir em sua melhor forma, virando o jogo.


Práticas que favorecem o ensino da crônica

• Leitura de diferentes crônicas – literárias, reflexivas, líricas, irônicas, bem humoradas, críticas –, publicadas em jornais, revistas, livros; modelos de referência no estudo dos aspectos do gênero.

• Leitura das crônicas da Coletânea de textos da Coleção da Olimpíada.

• Audição das crônicas do CD-ROM que acompanha o Caderno A ocasião faz o escritor.

• Escuta de canções do repertório da música popular brasileira cujas letras são verdadeiras crônicas musicais.

• Exercícios de substituição de palavras e rearranjo das estruturas de sentenças do texto, com vistas em observar o significado que as diferentes palavras e estruturas de frase geram.

• Atividades com foco nos distintos efeitos de sentido provocados pelo uso de pontuações: as reticências, as exclamações, os parênteses para introduzir explicações, as aspas para marcar alguma ironia.

 

 

1. Usa-se o termo técnico “suporte” para designar o meio material em que um discurso se dá. A voz ao vivo, o impresso, os muros, os ambientes digitais são exemplos de suportes para, respectivamente, o bate-papo, a bula de remédio, a pichação e o e-mail.

 

2. Consulte na página 135 do Caderno Poetas da escola o roteiro de revisão para o poema e na página 124 do Caderno A ocasião faz o escritor, o roteiro para crônica.

 

 


Revista Na Ponta do Lápis
Ano VII
Número 17
Agosto de 2011


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