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De olho na prática: Revisar para escrever bem

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Assunto: Revisão
Autor(a): NPL nº 13

 

Uma boa crônica – ao flagrar acontecimentos pitorescos do cotidiano – é capaz de surpreender, emocionar, divertir quem a lê. Mas, por trás da linguagem leve e coloquial, bem ao encontro da rapidez dos tempos pós-modernos, há um trabalho minucioso e consistente do escritor. São múltiplas escritas, leituras e reescritas antes que o texto chegue às mãos do leitor.

Sabemos que cabe à escola – por meio da intervenção do professor – criar condições para que o aluno possa aprender a se deslocar para o lugar de leitor do próprio texto e, assim, identificar o que não está claro, o que falta, o que precisa ser modificado, para que a escrita ganhe qualidade.

Vamos por meio dos registros e reflexões sobre a prática da professora Adriana de Sá Costa, da Escola Municipal Padre Antônio, de Campina Grande (PB), finalista da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro em 2008, conhecer como ela desenvolveu as atividades de revisão e o aprimoramento da crônica ao trabalhar com a Caixa de ferramentas.

Veja as anotações do “Diário de viagem” da professora Adriana:


Diário de viagem

Depois de ler e discutir alguns textos, o grupo teve uma visão geral acerca do gênero, demonstrando motivação para realizar a produção inicial. Achei interessante a observação de alguns alunos, argumentando que teriam de escrever sobre um gênero sem tê-lo estudado de forma mais sistemática. Nas palavras deles: Professora, como é que a gente já vai escrever uma crônica se a senhora começou a falar sobre ela agora?

Expliquei que eu precisava fazer um diagnóstico, identificando o conhecimento de cada um sobre a crônica.

Percebi um grande esforço do grupo na tentativa de melhorar essa produção em relação à anterior. Retomei os passos para a escrita da crônica e lembrei aos alunos que, ao escrever, não deveriam perder de vista o leitor, já que os textos seriam publicados.

Realizei um plano de escrita com os alunos, retomando os elementos do gênero, sobretudo o caráter crítico, subjetivo, da crônica.

De maneira geral, pude observar que houve avanços em todas as produções . Alguns de fato não conseguiram escrever uma boa crônica, mas, em relação à primeira produção, o desempenho melhorou muito.

No momento da reescrita, providenciei, para todos os alunos, cópias do texto que seria aprimorado. Assim, eles poderiam ler, analisar, propor e acompanhar as alterações. Eu escrevia no quadro as sugestões propostas.

Percebi que os alunos passaram a fazer observações mais consistentes . Além disso, aprenderam a sugerir sem criticar. Essa atitude respeitosa melhorou a relação entre eles.

Durante as atividades de reescrita alguns alunos demonstravam desinteresse. Alegavam que “não aguentavam mais olhar para o texto”. Procurei animá-los, esclarecendo que este é o processo pelo qual o texto passa – até dos escritores experientes, consagrados – antes de ser publicado. E o texto deles precisava ser bem escrito, pois seria publicado no blog e no jornal da escola.

 


Primeiras linhas

A análise do texto inicial permite que o professor identifique o que os alunos já sabem e também suas principais dificuldades. A partir desse mapeamento, pode planejar as intervenções necessárias para que a turma avance.

É fundamental que o professor ensine aos alunos que um texto bem escrito – aquele que cumpre a finalidade a que se propõe, conquista legitimidade perante o leitor – é um processo repleto de idas e vindas. Cada nova leitura é uma possibilidade de aprimorar uma ideia, checar o que está confuso, ambíguo, redundante, adequar o vocabulário, ajustar a pontuação, corrigir algum deslize ortográfico, gramatical.

O incentivo do professor é decisivo para encorajar os alunos a enfrentar a revisão e o aprimoramento do texto. Sempre que possível, prepare um bilhete com observações individualizadas que ajudem o aluno a identificar o que pode ser revisto para aperfeiçoar o próprio texto.

 

Velho do chinelo

Em um sítio bem próximo da cidade a estrela mais conhecida lá era o “Velho do chinelo”.

Todos diziam que ele era muito azarado e sempre perdia o chinelo.

Um dia como outro qualquer, um rosto novo pelas redondezas.

Os outros moradores ficavam se perguntando quem era este jovem? Ninguém sabia, mas ele estava ali para poder realizar um sonho neste dia.

— O senhor pode vir comigo?, perguntou o rapaz.

O senhor, com certo medo, diz que vai.

No caminho para a praia o “Velho do chinelo” vê o mar pela primeira vez. Os olhos ficam molhados com suas lágrimas, nem espera o carro parar e vai ao encontro do mar. Em um belo mergulho perde seu par de chinelos. Sem pensar ele grita o mais que pode. E com uma voz de choro, ele pergunta:

“Cadê meu chinelo?”

 

Acompanhe a devolutiva que a professora deu ao Luan Vieira, valorizando o que o ele já sabe e apontando os conhecimentos que precisam ser aprendidos.

 


Luan,

Você escolheu um interessante personagem de sua vida para escrever a crônica. Percebo em seu texto pitadas de ironia. Há também emoção ao narrar a experiência do “Velho do chinelo” quando ele vê o mar pela primeira vez. Deixo uma sugestão: procure ler outras crônicas, observar o jeito de o cronista narrar os fatos do cotidiano, antes de reescrever o seu texto.

 

O olhar apurado do professor ao examinar as produções de seus alunos permite que ele conheça as necessidades do grupo e as intervenções que devem ser feitas.

Verifique a análise atenta da professora Adriana:

■ O aluno escolheu um episódio com um personagem próximo de sua realidade: o morador de
um sítio, conhecido como “Velho do chinelo”. Parece que ele já sabe o que dizer.

■ Há sucessão de acontecimentos no texto que precisam ficar mais claros para o leitor.

■ Incluiu diálogo entre os personagens da trama, numa tentativa de envolver o leitor no enredo.

■ Mesclou ironia, humor e até umas “pitadas” de lirismo, mas ainda não definiu o tom da crônica.

■ Usou um bom recurso para finalizar o texto, entregando o desfecho nas mãos do leitor.

 

Fazer junto: é hora do aprimoramento coletivo da crônica

A reescrita faz parte do processo de escrita. É uma prática trabalhosa, mas essencial para o ensino da produção textual.

Antes de propor que cada aluno reveja e aperfeiçoe seu texto individual, é importante que se faça essa atividade coletivamente. A reescrita coletiva – o fazer junto – possibilita aos alunos uma experiência modelar, que vai ajudá-los na reformulação das ideias, para que eles possam dizer mais, dizer de outro jeito, analisar e/ou corrigir o que foi dito.

Transcreva o texto que será reescrito e, com antecedência, prepare algumas perguntas que possibilitem aos alunos enxergar as soluções para o texto. Por exemplo:

 

■ Você não acha interessante apontar outras características do personagem?

■ Será que azarado é o melhor adjetivo para o personagem?

■ Quem é o jovem que se aproximou do velho?

■ O discurso direto não daria mais vivacidade ao texto?

■ Diante da aceitação do convite feito, quais foram os preparativos para a viagem?

■ “No caminho para a praia” o velho já avistou o mar? Esse fato poderia ser narrado de outra maneira?

 

Depois de cada pergunta, dê tempo aos alunos para se manifestarem. Vá anotando, ao lado da versão original, as contribuições da turma. Leia para o grupo as várias possibilidades apresentadas.

É preciso que o professor, durante o processo de aprimoramento do texto, fique atento às mudanças realizadas para preservar a autoria.

Conheça como ficou a versão aperfeiçoada do texto:

 

Velho do chinelo

O Velho do Chinelo era a pessoa mais conhecida naquelas paragens. Morava num sítio não muito longe da cidade de Pedrinha. Distraído, sempre perdia objetos pessoais, principalmente o chinelo. Foram tantas perdas e confusões, que a fama de atrapalhado se espalhou pelo lugarejo.

Um dia apareceu um rosto novo pelas redondezas. Intrigados, os moradores do lugar ficavam perguntando quem seria aquele jovem, por que estava na cidade. O que ninguém sabia é que ele – sobrinho do velho – veio à cidade especialmente para realizar o sonho do tio.

— O senhor quer dar um passeio comigo? — perguntou o rapaz ao velho.

Meio ressabiado – há tempos não tinha notícias do jovem — aceitou o convite.

— Eu preciso levar alguma coisa? — perguntou o velho ao rapaz.

— Nada de especial, apenas uma roupa confortável — respondeu o sobrinho.

Mochila pronta, os dois iniciam o passeio.

Ainda na estrada, o Velho do chinelo avista o mar pela primeira vez. Emocionado, os olhos ficam molhados de lágrimas. Nem espera o carro parar direito e sai correndo pela praia ao encontro do mar.

O velho dá um belo mergulho e perde seu par de chinelos. Sem pensar, ele grita o mais que pode. Não era de felicidade ou por causa da água fria. Com uma voz de choro, resmunga: “Cadê meu chinelo?”.

 

Revendo o caminho percorrido

■ Escolhi um texto que representava as principais dificuldades dos alunos.

■ Pedi autorização do autor para utilização do texto.

■ Copiei, previamente, a crônica numa folha de papel kraft .

■ Conversei sobre alguns combinados indispensáveis para manter no grupo o respeito mútuo e a cooperação.

■ Expliquei aos alunos a importância de revisar e aprimorar o texto.

■ Elaborei, antecipadamente, perguntas que ajudassem os alunos a pensar nas modificações e nos ajustes que precisavam ser feitos no texto.

■ Relembrei com eles a situação de comunicação: quem fala; de que lugar; com que objetivo; para quem ler, como; onde irá circular; em que suporte será publicado.

■ Li o texto na íntegra com os alunos.

■ Verifiquei se o texto reporta de forma significativa e pertinente algum aspecto ligado à vida cotidiana do local.

■ Apontei o que está bom no texto e o que precisava ser melhorado.

■ Pedi que verificassem se a crônica cumpre o objetivo a que se propõe: emocionar, divertir, refletir, surpreender o leitor.

■ Conferi se os recursos da linguagem estavam adequados ao tom do texto: irônico, humorístico, lírico, crítico;

■ Preparei um cartaz com o roteiro para revisão.

■ Ajudei o grupo a identificar se o enredo da crônica está bem desenvolvido, coerente, se há uma unidade de ação, se no desenrolar do texto as características da narrativa (personagem, cenário, tempo, elemento surpresa ou conflito e desfecho) estão presentes.

■ Ouvi as alterações propostas e decidi, junto com o grupo, qual é a melhor forma de escrever o texto.

■ Assegurei a interação e participação de todos os alunos, evitando o monopólio daqueles que têm maior domínio da escrita.

■ Reli com o grupo cada parágrafo produzido para verificar se o texto atende às convenções da escrita (morfossintaxe, ortografia, acentuação, pontuação).

■ Pedi à turma que fizesse as alterações necessárias e conferisse se o texto mantém a coesão, a coerência, se o sentido do texto foi preservado.

 

Há outras estratégias para encaminhar a reescrita coletiva. Você pode analisar todos os textos e selecionar trechos diversos que precisam ser revisados e reescritos. Neste caso, organize os alunos em duplas ou pequenos grupos e peça a eles que leiam e apontem as alterações que julgarem necessárias. Outra possibilidade é selecionar trechos de várias produções que apresentam o mesmo tipo de problema e fazer atividades de reflexão sobre a língua portuguesa com eles.

Por certo, você vai encontrar sua própria forma de ensinar os alunos a ler, revisar e reescrever os textos deles.

 

Aprender a fazer sozinho

Depois de exercitar o aprimoramento de texto com a colaboração do professor e dos demais colegas da turma, é hora de o aluno caminhar rumo à autonomia, aprender a olhar criticamente para o próprio texto, identificando o que precisa ser alterado. É necessário que os alunos percebam que é preciso dar sentido aos seus dizeres, se façam entender por aqueles que irão ler seu texto. Para ajudá-los nessa tarefa, o professor pode ler o texto em voz alta para que eles percebam o que não ficou claro, onde estão os problemas, fazer algumas perguntas que os ajudem a enxergar o que precisa ser alterado, observando as orientações propostas no roteiro de revisão e aprimoramento.

 

Roteiro de revisão e aprimoramento

■ O cenário da crônica reflete o lugar onde vive?

■ Ela cumpre o objetivo a que se propõe: emocionar, divertir, provocar reflexão, enredar o leitor?

■ E o episódio escolhido, como é tratado pelo autor? Há um modo peculiar de dizer?

■ Organiza a narrativa em primeira ou terceira pessoa?

■ As marcas de tempo e lugar que revelam fatos cotidianos estão presentes?

■ Que tom o autor usa ao escrever: irônico, humorístico, lírico, crítico?

■ Utiliza uma linguagem simples, espontânea, quase uma conversa informal com o leitor?

■ O enredo da crônica está bem desenvolvido, coerente? Há uma unidade de ação?

■ No desenrolar do texto, as características da narrativa (personagem, cenário, tempo, elemento surpresa ou conflito e desfecho) estão presentes?

■ Faz uso de verbos de dizer?

■ Os diálogos dos personagens são pontuados corretamente?

■ Há alguma palavra que não está escrita corretamente, frases incompletas, erros gramaticais, ortográficos? E a pontuação está adequada?

■ O título mobiliza o leitor para leitura?

 

Veja, em outro texto, as indicações propostas pela professora Adriana:

 

 


Revista Na Ponta do Lápis
Ano VI
Número 13
Fevereiro de 2010


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