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Práticas documentárias na escola, em busca de novos

Práticas documentárias na escola, em busca de novos

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Autora: Cristina Teixeira Vieira de Melo *
05 Setembro 2018

Muitos professores recorrem ao documentário com a intenção de debater os conteúdos presentes neles: lixo, seca, enchentes, poluição, revoluções etc. A ideia aqui é pensar o documentário não como veículo de informação, de conhecimento, mas como possibilidade de (re)invenção de mundo, como um ato criador.

Expliquemos melhor essa proposição: uma imagem é ao mesmo tempo o mundo e uma alternativa de
mundo, ou seja, uma imagem é construção, um recorte da realidade. Qualquer acontecimento quando registrado por uma lente sofre uma alteração, pois, o ato de filmar implica escolhas diversas, como a definição da distância, do ângulo e do enquadramento a partir do qual se posicionará a câmera. Todas essas questões, além de resultarem em efeitos estéticos particulares, estão sempre atravessadas por questões éticas, por exemplo, ao se fazer o registro de uma passeata eleitoral, pode-se segurar a filmadora na altura do ombro, focalizando de perto o candidato e os eleitores ao seu redor e assim dar a impressão de que ele é seguido e ovacionado por muitos. Outra possibilidade é captar essa mesma cena, de cima, de forma panorâmica, para revelar que, exceto as pessoas bem próximas ao candidato, a rua está vazia, evidenciando serem poucos aqueles que efetivamente o acompanham. Cada uma dessas imagens cria a sua própria verdade.

Para não ficarmos num exemplo em que a construção de imagem está, na sua própria gênese, marcada por posições políticas, ilustremos essa defasagem entre “a coisa no mundo” e a imagem a partir de um caso relatado pelo professor Cezar Migliorin no seu livro Inevitavelmente cinema (2015). Migliorin conta que estava acompanhando as filmagens de um grupo de estudantes do Recife, no bairro de Brasília Formosa, quando uma das alunas dirigiu-se à amiga, dizendo: “Não filma isso não, é muito feio”. Tratava-se do registro de uma viela molhada, com marcas de mofo nas paredes e roupas penduradas. Apesar do conselho da colega, o registro foi feito. Posteriormente, na escola, após a exibição da referida cena, Migliorin perguntou à menina que considerou feia aquela parte do conjunto habitacional qual a impressão dela a respeito da imagem. Ela respondeu: “Gostei, é cinema!”. Migliorin comenta que a imagem havia provocado um deslocamento na percepção da menina. Nas palavras dele: “A menina saía de uma imagem generalista expressa pelo adjetivo feio, calcada em algo objetivo – o mofo, a sujeira – para uma imagem recortada, portadora de um ponto de vista, atravessada por decisões de enquadramento, movimento, ritmo, cores” (Migliorin, 2015, p. 129). Ele alerta ainda que à apreciação de feio a garota não opôs a ideia de bonito, “mas uma aparição, uma imagem, algo a ser visto e experimentado, o cinema” (Idem). Ele conclui dizendo que a expressão “é cinema” indica uma percepção da menina de que “a imagem não se confunde com o real – não é a coisa – e que há uma distância mediada por um dispositivo técnico e um ponto de vista” (Idem). 

Esse relato nos mostra que uma imagem tem a capacidade de produzir novas experiências de mundo. Quem se coloca na posição de criar uma imagem sente a força do que é ver e fazer ver. O olhar dá forma ao que olha. Nesse sentido, gostaríamos de indicar atividades com as práticas documentárias em sala de aula que possam levar a outras formas de olhar o mundo, a cidade, o lugar onde se vive, a comunidade escolar, a família, os amigos, os vizinhos e a si mesmo.

As atividades aqui sugeridas não dizem respeito às tradicionais etapas de elaboração de um documentário: ideia, sinopse, pesquisa, escolha dos dispositivos (entrevista, filmagem direta da ação dos personagens, material de arquivo, encenação etc.), escrita do argumento, filmagem, edição. Nesse momento, ainda não estamos nos aventurando na elaboração de um filme documentário. Preferimos ficar no campo dos gestos mínimos, ensaísticos, das experimentações que podem encaminhar para futuros documentários.

Propomos atividades de sensibilização envolvendo a questão do olhar, da produção da imagem, da relação com o outro filmado. Tais questões suscitam reflexões éticas e estão na base de práticas documentárias que buscam mostrar o real de uma forma ainda não vista, não percebida. E com isso não queremos dizer que estamos atrás da revelação de um segredo. Trata-se tão somente de outras possibilidades de ver, de mostrar, de sentir e de ser. Enfim, trata-se de sonhos e desejos que toda imagem carrega.

Deslocamentos de ponto de vista

A primeira sugestão é levar os alunos a se olharem nas imagens que eles olham, assim, é necessário construir um arquivo com imagens de diversos tipos tanto aquelas que circulam nas esferas jornalística e publicitária quanto as que costumeiramente habitam as redes sociais, como as selfies do Facebook e os vídeos do YouTube. Ao exibir tais imagens não se deve ter pressa nos comentários. Olhar e ver exige tempo e atenção. É importante fazer os alunos perceberem o que as imagens mostram ou deixam de mostrar. Pensar o que está fora da imagem implica compreender que, por vezes, uma imagem deixa fora do campo de visão um elemento importante da cena. É o caso, por exemplo, de quando se registra a face de medo de alguém sem se mostrar o que aterroriza a pessoa. Mas há outras maneiras de se pensar essa “imagem que falta”: ao se produzir uma imagem, abandonam-se outras possíveis. Então, é oportuno se interrogar quais imagens não conseguem sobreviver nesse mundo do espetáculo, do marketing e da violência cotidiana. É também imprescindível indagar os alunos de que maneira eles se identificam, ou não, com as imagens exibidas. É preciso buscar entender porque eles aderem ou rejeitam tais representações, o que agrada ou desagrada. Por fim, pode-se questioná-los de que forma eles refariam tais imagens, quais alterações proporiam. Essa atitude crítica representa uma tomada de posição diante das imagens, possibilitando pensar o que pode ser diferente e como. Uma reflexão dessa natureza é o alicerce para a elaboração de um documentário vindouro.

Nesse ponto é importante chamar atenção para a falsa crença de que o documentário é cópia da realidade. Definitivamente, não se trata disso. O documentário é um gênero fortemente marcado pelo olhar de quem filma. O documentarista não precisa camuflar a sua própria subjetividade ao narrar um fato. Ele pode opinar, tomar partido, se expor, deixando claro qual o ponto de vista que defende. Esse privilégio não é concedido ao repórter, pois ao se posicionar ele pode ser considerado parcial, tendencioso, em última instância, alguém que manipula a notícia. Sobre isso, Amir Labaki, diretor do Festival Internacional de Documentários “É Tudo verdade”, declarou ao “Caderno Mais!”, da Folha de S.Paulo, em 4 de março de 2001: “Objetividade é uma utopia a perseguir para o jornalismo, seja escrito ou audiovisual, mas não para o documentário. O cinema não ficcional é uma obra de arte que carrega a visão de mundo de seu criador, tanto quanto qualquer filme de ficção esteticamente engajado”. Na mesma edição da FSP, o documentarista João Moreira Salles sentencia: “Um documentário ou é autoral ou não é nada. [...] é uma visão que me interessa porque nunca será a minha. É exatamente isso que espero de qualquer bom documentário: não apenas fatos, mas o acesso a outra maneira de ver”. Então, antes de se produzir um documentário, é preciso tomar posição diante do mundo e das imagens, as existentes e as por vir.

Por que produzir uma imagem

As três atividades que sugerimos a seguir se baseiam em propostas concebidas pelo “Inventar com a diferença – Cinema, educação e direitos humanos”, projeto que entre os anos de 2014 e 2015, com a ajuda de entidades parceiras, funcionou em escolas de todo o país com o objetivo de compartilhar saberes e práticas do cinema e dos direitos humanos no ambiente escolar. Vale a pena visitar o site do projeto e se inspirar.

Uma das atividades indicadas pelo “Inventar com a diferença” é o “Minuto Lumière”, uma alusão aos Irmãos Lumière que idealizaram o cinematógrafo, um aparelho que permite registrar uma série de instantâneos fixos (fotogramas) que, quando projetados, criam uma ilusão de movimento. A proposta é que a partir de um plano fixo e de uma tomada que dure um minuto, os estudantes filmem uma cena qualquer. No vocabulário audiovisual, “tomada” designa aquilo que acontece na frente da câmera no tempo entre o ligar e o desligar do botão e “plano fixo” significa que a câmera não deve se mover durante a filmagem.

Para que o exercício funcione é importante que os alunos definam antes o que querem filmar, o posicionamento da câmera (ponto de vista), o enquadramento (o que fica dentro e fora da imagem), a distância entre a câmera e os objetos a serem filmados, a disposição das coisas umas em relação às outras, a luz que incide sob a cena. Montado o aparato e tomadas essas decisões, deve-se ter clareza do momento em que se vai disparar o botão de gravação.

A ideia é que esse registro possa se diferenciar das inúmeras imagens que esses mesmos alunos costumam fazer em seus celulares e dispositivos móveis. Essas imagens cotidianas se repetem a exaustão, estão no campo da “mesmidade”, não provocam estranhamentos. O objetivo do “Minuto Lumière” é deslocar o olhar, produzir outra imagem, uma imagem ainda não vista, mesmo que já vista, mas que agora é alvo do olhar da câmera. Portanto, no momento da discussão em sala, é necessário que os alunos justifiquem o porquê daquela imagem, suas motivações e desejos.

Também é interessante trazer à tona que, apesar de todo o planejamento, o fato de deixar a câmera ligada durante um minuto, captando o passar do tempo e as ações que porventura ocorram, permite que o real irrompa com suas indeterminações e inacabamentos. Para os alunos é importante experimentar o controle e o descontrole, a ordem e a desordem. Além disso, há sempre, como já assinalado, a diferença entre o que se vê e aquilo que é filmado. No momento da exibição em sala pode-se perceber que o mundo se transformou em cinema, com as texturas, cores e sensibilidades próprias desse último.

A relação com a alteridade

Outra atividade interessante do “Inventar com a diferença” é “Lá longe, aqui perto”, que propõe a filmagem de um desconhecido em plano geral (quando se enquadra a personagem de longe, numa visão panorâmica que contempla todos os elementos da cena), em plano médio (quando se enquadra a personagem de perto, da altura dos joelhos ou da cintura à cabeça) e em close (quando se enquadra o dorso e o rosto da personagem). Depois de feitos esses planos, a câmera deve ser entregue à pessoa filmada para que ela faça suas próprias imagens. Deve-se ter o cuidado de antes de iniciar a gravação avisar à pessoa que num determinado momento a câmera lhe será entregue e que a partir desse momento ela pode filmar o que quiser: o ambiente, alguém que esteja próximo, um objeto, a si mesma etc. Ao final da gravação, é importante perguntar à pessoa a motivação de ela ter direcionado a câmera para onde direcionou.

Essa atividade põe em prática algo que é muito frequente na realização de documentários: o contato com pessoas com as quais não se tem nenhuma relação. Frente a esse desafio várias questões se colocam: Como abordar essas pessoas? Que relação estabelecer com elas? Como representá-las? O que fazer para que elas naturalizem a câmera? Isso – naturalizar a câmera – é necessário? E se essas pessoas, do ponto de vista político e moral, ocupam o lugar do adversário, como se portar? Como dialogar com elas? Que imagens produzir? Todas essas são questões éticas que quem filma deve-se colocar. Por sua vez, o ato de dar a câmera à pessoa para que ela mesma possa filmar o entorno e a si mesma significa, respectivamente, um partilhamento da autoria e uma possibilidade de autorrepresentação da personagem. Trata-se de um exercício da democratização da representação.

Mais uma vez vale salientar o caráter de construção do olhar. Quando o documentário enfoca um indivíduo ou um grupo, ele não está falando propriamente dessas pessoas, mas da relação do documentarista com elas, de como ele as vê e as representa. João Moreira Salles (2005) defende que uma das grandes preocupações de qualquer documentarista é a relação ética que ele estabelece com as personagens, pois, diferentemente das personagens de ficção, as do documentário têm uma vida para além do filme, e o documentarista precisa pensar como o filme as afetará.

Poetizar a si

Uma última atividade que gostaríamos de retomar do “Inventar com a diferença” é o “Filme Carta”, que traz a possibilidade de os estudantes se corresponderem através do cinema e falarem de si de maneira bastante subjetiva e experimental. A ideia é, inclusive, que eles possam fabular, inventar, criar a própria existência, ou seja, é permitido ficcionalizar a própria vida.

Para a feitura do “Filme Carta”, a primeira coisa a fazer é escolher um destinatário (alunos de outra turma, de outra escola etc.). Definido isso, os alunos, a partir da captação de imagens, sons, músicas, locução e do jogo entre esses elementos, podem criar e inventar as narrativas de si. Dependendo da disponibilidade técnica, o “Filme Carta” pode ser feito de forma mais simples (apenas com um celular) ou mais elaborada (com filmadoras e computadores de edição). Importante que, ao estilo de uma correspondência epistolar, a troca se efetue e cada grupo possa conhecer o outro e suas visões de mundo.

Brevíssimas palavras de encerramento

O cinema, de ficção e não ficção, é um lugar de intensidades. Ele transforma nossas relações com o tempo e o espaço, bem como nossas formas de ver e sentir. Não é à toa que o nome do projeto que nos serviu de base para as atividades aqui sugeridas é “Inventar com a diferença”. Apoiando-se no filósofo francês Gilbert Simondon (1924-1989), o projeto acredita que o sujeito não para de se diferenciar de si mesmo. Nesse sentido, não importa o que ele é, mas o que ele pode vir a ser a partir das conexões que estabelece. Acreditamos que a presença de práticas documentárias na escola é uma conexão bem-vinda, porque potencializa e intensifica esse vir a ser dos estudantes-sujeitos. Essa é a nossa aposta, e convidamos você, professor, a também apostar nela.

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* Cristina Teixeira Vieira de Melo é professora do Curso de Cinema e da Pós-graduação em Comunicação, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).


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