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A escrita do professor-autor

A escrita do professor-autor

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16 Janeiro 2018

Compartilhamos as experiências e os desafios vividos em sala de aula por docentes, de diferentes lugares do país, que apresentaram seus projetos de escrita no “Seminário Nacional Escrevendo o Futuro – Com a palavra o professor-autor”, em outubro de 2017.

Ana Virgínia Domingos

Ana Virgínia Domingos de Oliveira
Quixeramobim (CE)
Professora do 3º- ano do Ensino Médio

Escrevendo crônicas: o despertar da partilha sob novos olhares

GÊNERO: CRÔNICA

“Naquele dia, para nossa surpresa, o al uno visto como o mais introspectivo da sala abriu o caderno e começou a ler em voz alta seu primeiro texto, colocando em liberdade palavras aprisionadas nas bolinhas de papel que deixava cair da mesa.”

O contentamento da professora Virgínia Domingos não se limitou ao despertar para a escrita e ao compartilhamento de um texto pelo aluno do 3º- ano “D”, da Escola Estadual de Educação Profissional Dr. José Alves da Silveira, em Quixeramobim, no Ceará.

Aquela cena simbolizava a superação das dificuldades e resistências que encontrou na turma quando, no início do ano letivo, se atreveu a trabalhar com o gênero crônica, mesmo ciente de que o Enem já batia à porta de sua sala de aula. Mais que apurar o olhar para escrever crônicas sobre o cotidiano da cidade, aquela sequência didática representou para seus alunos um intenso despertar para a autorreflexão e a possibilidade de partilhar medos, dúvidas, angústias, anseios... Descobriam o poder da autoria e da partilha, como revelou a aluna: “Ser jovem é muito difícil, por isso a crônica veio numa hora em que eu precisava ser ouvida e poder expressar minha bagunça de sentimentos”.

Ana Virgínia Domingos

Carolina Lobrigato
São Paulo (SP)
Professora do 7º- ano do Ensino Fundamental

Vozes que encantam, comemoram e representam!

GÊNERO: SPOT RADIOFÔNICO

É hora de comemorar!

A E. M. E. F. Altino Arantes completa 60 anos. Os alunos ansiosos buscam várias maneiras de festejar este acontecimento. Afinal, a escola é referência no bairro.

Os sétimos anos da professora Carolina decidiram, entre as diversas atividades que estão sendo realizadas, produzir spots radiofônicos, divulgados no intervalo das aulas e na Mostra Cultural da Escola, que contará com a presença da comunidade.

Entre os desafios encontrados, o maior deles foi a transposição da linguagem escrita para a oral. Porém, uma parceria com o professor de Informática facilitou o trabalho e o resultado foi surpreendente! Ao ouvirem suas próprias vozes gravadas, os alunos se entusiasmaram e continuaram produzindo cada vez com mais criatividade, atingindo assim o objetivo da professora que era aliar o protagonismo dos alunos com o aprimoramento da capacidade de comunicação, da persuasão e da exploração da linguagem oral.

Ana Virgínia Domingos

Elizete Vilela de Faria Silva
Divinópolis (MG)
Professora do 8º- ano do Ensino Fundamental

Escrevo-te estas bem traçadas linhas: Unindo nossas vozes contra o preconceito

GÊNERO: CARTA ABERTA

Diante de situações que nos incomodam temos duas opções: calar ou nos fazer ouvir. Embora a primeira possa parecer mais fácil, é a segunda que promove mudanças. Em nós e nos outros. E foi este o caminho escolhido pela professora Elizete e seus alunos. Foram muitas trilhas percorridas, mas vamos apresentar apenas duas.

A primeira, ponto de partida do projeto, foi a superação do preconceito. O tema “Respeito e Preconceito” despontou em um jogo que abordava questões polêmicas. Os alunos fizeram uma reflexão madura e identificaram em suas interações cotidianas a revelação de seus sutis preconceitos: “Aprendi a reconhecer o preconceito”, “Brincadeira de mau gosto pode machucar o colega”.

O mural “Isso é preconceito” trazia alguns dizeres, veja esse: “Tenho um pai racista que diz ‘negros caçam brigas’”. Os exemplos, expressos no mural, afetaram a vida da comunidade escolar, que parava para ler e conversar sobre as mensagens – “Chamar cabelo crespo de ‘cabelo ruim’”, ou “pessoas negras, de ‘moreninhas’”, ou “dizer que uma pessoa é feia só porque ela não se adequa aos padrões estéticos impostos pela sociedade”.

A declaração de um dos alunos revela o valor desse trabalho: “O projeto não morre dentro da sala, vai para nossa vida”.

Mas, e o trabalho com a língua portuguesa? E aqui está a segunda trilha – a análise da linguagem expressa nos bilhetes escritos pelos alunos para seus colegas, orientando a reescrita de seus textos, uma das estações da sequência didática. Nessas mensagens era evidente a leitura respeitosa, livre de julgamentos e a indicação precisa para reformulação – eles tinham aprendido com a professora como analisar criticamente um texto. Mais surpreendende foi perceber como uma das alunas questiona a orientação da colega: “Você me diz para eu incluir mais dados, mas como eu procuro persuadir o leitor, vou dar mais opinião, não estou fazendo uma reportagem”.

A clareza dos objetivos da escrita de uma carta aberta expressa-se na fala de uma das alunas: “Escrevemos também para dar voz àqueles que não sabem escrever e querem ver essas ideias espalhadas”.

Ana Virgínia Domingos

José Gilson Lopes Franco
Fortaleza (CE)
Professor do 7º- ano do Ensino Fundamental

Um caminho para o ensino da escrita

GÊNERO: LITERATURA DE CORDEL

A Escola de Tempo Integral Dom Antonio de Almeida Lustosa está situada em Bom Jardim, território de alta vulnerabilidade na periferia de Fortaleza, Ceará. É nessa escola que José Gilson Lopes Franco leciona desde o início de 2016. Tanto ele quanto seus colegas educadores se mantêm firmes em seus princípios e objetivos educacionais, traduzida pela diretora como “Pedagogia da Presença”, exercida cotidianamente, ou seja, a relação de respeito e confiança entre professores e alunos se expressa não apenas por palavras, mas também por gestos, olhares, ações em trabalho!

Seguindo as orientações do Caderno do Professor e estudando a metodologia de ensino proposta pelo Programa Escrevendo o Futuro, Gilson dedica-se com afinco ao planejamento e à preparação dos recursos que utiliza em sala de aula: imagens de xilogravuras, objetos da cultura nordestina, cordéis pendurados em varais, mala de livros. Os cartazes com o passo a passo das oficinas, os registros fotográficos com os alunos agrupados de formas variadas, as diferentes configurações da sala de aula, o mural com textos de estudantes falam sobre o percurso trilhado. Assim, encontramos resultados do trabalho, na voz dos alunos:

“Eu gosto muito das aulas do Gilson porque ele é uma pessoa que sabe dividir o que a gente tem que aprender. Ele não passa tudo de uma vez para que a gente aprenda só. Ele não deixa que a gente faça sozinho.”

E o professor Gilson completa: “O caminho percorrido não é o mesmo. Os alunos não partem do mesmo lugar, nem chegam ao mesmo lugar; não partem do mesmo jeito e também não chegam do mesmo jeito.”

Ana Virgínia Domingos

José Jilsemar da Silva
Marcelino Vieira (RN)
Professor do 7º- ano do Ensino Fundamental

Motivo, tudo de que preciso?

GÊNERO: ARTIGO DE OPINIÃO

A concepção do trabalho com a língua materna, na perspectiva de formar leitores e produtores de textos, impulsionou o professor Jilsemar à construção de um projeto com os alunos do 2º- ano do Ensino Médio, cujo objetivo era transformar seus alunos em articulistas de um artigo de opinião. Para tanto, foi planejada uma sequência didática contemplando os eixos da oralidade, da leitura e da escrita e, nesse percurso, a análise e discussão de experiências socialmente compartilhadas no lugar em que vivem, por meio de debates em sala de aula, mesa-redonda (com participação de autoridades locais) e uma “conversa afiada” com os membros do legislativo municipal.

As atividades desenvolvidas repercutiram para além dos muros da escola, ganharam visibilidade em mídias locais e foram registradas em uma página no Facebook. O lançamento da “Primeira coletânea de artigos de opinião da Escola Estadual Des. Licurgo Nunes” traduz, com mais propriedade, o êxito alcançado, considerando o entusiasmo e empenho da turma e, sobretudo, os conhecimentos construídos no tocante à produção escrita, uma vez que ficou evidente o vínculo estabelecido entre a competência linguística e a competência comunicativa dos, então, articulistas, no uso efetivo da língua materna em sua função social.

Ana Virgínia Domingos

Maira Andréa Leite da Silva
Santa Cruz do Sul (RS)
Professora do 9º- ano do Ensino Fundamental

Essa paixão que desvela o cotidiano

GÊNERO: CRÔNICA

Assumindo aos quatro ventos do sul sua paixão incondicional pela crônica e acolhendo a oportunidade de viver com seus alunos, na Escola Harmonia, uma experiência de leitura, análise e escrita do gênero em questão, a professora Maira desenha uma sequência didática baseada, a princípio, nos moldes das oficinas sugeridas no Caderno do Professor – A ocasião faz o escritor.

O projeto de levar a turma para conhecer os encantos e os múltiplos tons da crônica ganha forma e vez; no percurso, quer fazer brotar no olhar pouco experiente dos alunos a porção crítica e desafia seus próprios obstáculos e o desinteresse dos alunos do 9º- ano do Ensino Fundamental.

Seu intento é que os alunos, movidos pela curiosidade, vislumbrem o desvelar do cotidiano, através do olhar e das palavras do cronista. Assim, sua tarefa foi ganhando novos desenhos, outras atividades.

Como experimentar estratégias que levem os alunos a se apropriarem da crônica?

O que chama a atenção nesse sentido é que sua sequência de trabalho ganha etapa ampliada no momento da produção final. Os alunos são encorajados a escreverem e rescreverem múltiplas crônicas.

A sala de aula, movida pela paixão e pelo intento pedagógico, ganha espaços de transferir figuras literárias, percebidas em letras de música, para o texto da crônica. Reinaugura sessões de leituras e rodas de conversa sobre crônicas e cronistas inspiradores. Organiza sessões para ler e verificar possibilidades de melhoria dos textos. Os nós das dificuldades vão se desatando, aos poucos.

Ana Virgínia Domingos

Marta Regina Martins
Monte Santo de Minas (MG)
Professora do 8º- ano do Ensino Fundamental

Autores e atores nascem na sala de aula

GÊNERO: TEXTO TEATRAL

O trabalho da professora Marta chama a atenção pela opção por um gênero não indicado na Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro: o texto teatral escrito.

Ao criar, na escola, o grupo teatral “Pé sem sapato”, Marta acumulou conhecimento e prática, encenando com os alunos peças infantojuvenis. O gênero já fazia parte do seu fazer pedagógico. Assim, o convite da Olimpíada encorajou-a a desenvolver o projeto “Autores e atores nascem na sala de aula”.

Após conversas com as turmas da Escola Estadual Dr. Wenceslau Braz, o 8º- ano “A” abraça a ideia com alegria. Numa sequência bem elaborada, os alunos conhecem o gênero e suas marcas, obras e autores, escrevem e reescrevem textos a partir de diferentes situações e propostas.

Desafio final: em pequenos grupos, definir o tema e produzir um texto teatral. Sérios, bem-humorados, portando denúncias ou revelando o universo dos autores, os textos brotam e rebrotam, apesar das muitas pedras no meio do caminho. Nem a interminável reforma da escola, nem as férias antecipadas pela precariedade do transporte escolar impediram Marta e seus alunos de realizar esse belo trabalho.

Ana Virgínia Domingos

Michele Mendes Rocha de Oliveira
Tabatinga (AM)
Professora do 3º- ano do Ensino Médio

A argumentação que leva à estrada da cidadania

GÊNERO: CARTA DE SOLICITAÇÃO

Há anos, alunos, professores e funcionários do Instituto Federal do Amazonas – Campus Tabatinga – enfrentam dificuldades para chegar à rua Santos Dumont, local onde está a escola. Grandes buracos, lama, água e os consequentes acidentes e atolamentos de veículos já se tornaram rotina na vida da comunidade escolar. Diante disso, a professora resolveu lançar mão da escrita e convidou seus alunos para juntos tentarem solucionar o problema.

Michele propõe, então, a elaboração de uma carta oficial de solicitação para o prefeito do município. Após o término da produção, o prefeito recebeu o documento das mãos dos estudantes e foi à escola conversar com alunos, professores, funcionários e comunidade local, informando as providências que seriam tomadas.

Como o tema era de grande relevância social, o projeto mobilizou toda a comunidade, que pôde enxergar o poder da palavra e a possibilidade de participação social por meio da escrita. Assim, os estudantes utilizaram seus textos a serviço de um problema real compartilhado por todos da região.

Segundo os próprios alunos, eles estavam sentindo-se “mais poderosos”, o que evidencia, sem dúvida, a relação entre escrita e cidadania proporcionada pelo trabalho desenvolvido.

Ana Virgínia Domingos

Quitéria Éden Batista Leite
Pesqueira (PE)
Professora do 1º- ano do Ensino Médio

Da leitura à escrita – Trilhas a serem percorridas

GÊNERO: RESENHA LITERÁRIA

A professora Quitéria Éden, ou simplesmente Éden, como é conhecida, sempre viveu o desafio de ensinar seus alunos da Escola de Referência em Ensino Médio José de Almeida Maciel, na cidade de Pesqueira, em Pernambuco, a apreciarem os clássicos da literatura nacional, para se envolverem, de forma efetiva, com as histórias de lugares e personagens.

Foi exatamente por meio de uma história, ou melhor, do relato escrito da sua história, que a professora vislumbrou uma forma de realizar o projeto sobre resenhas literárias.

Seu texto e sua inspiração nasceram da solicitação do curso virtual “Caminhos da Escrita”, oferecido pelo Portal Escrevendo o Futuro, com a reflexão “Eu, a leitura e a escrita”, uma das atividades inaugurais da proposta, que visa, entre outros objetivos, contribuir para o trabalho com projetos sobre práticas de letramento.

Assim, a partir da leitura de seu relato “Senta que lá vem história!”, Éden convidou seus alunos do 1º- ano A para registrarem suas próprias trajetórias e percebeu que eles começaram a abrir caminho para o que chamou de “viajar, sem sair do lugar”.

Na sequência, rodas de leitura e de conversa, vídeos, produções escritas, indicações literárias e, especialmente, variadas obras passaram a integrar a rotina de seus alunos, culminando na elaboração de consistentes resenhas literárias.

Ana Virgínia Domingos

Rosa Maria Martins Pereira
Rio Grande (RS)
Professora do 7º- , 8º- e 9º- ano do Ensino Fundamental

Valorizando saberes torotameiros

GÊNERO: CRÔNICA

Com um olhar nos saberes da comunidade torotameira e outro na experiência com o trabalho com gêneros textuais, crônicas foram ensinadas e escritas. A professora aproveitou o momento certo: a roda das mulheres sirizeiras, da Ilha da Torotama e pensou: “Por que não valorizar esse trabalho tão presente na vida das alunas e escrever crônicas?”.

Saíram para além dos muros da escola. O desafio era registrar, com fotos, lápis e cadernos, os saberes da ilha; e este olhar para fora trouxe as mulheres para dentro, em uma roda de conversa.

Enfrentou resistências, mas não se deteve. Trabalhou a sequência didática que havia proposto e devagar foi cativando as alunas para o projeto.

As crônicas iam nascendo e ganhando sustentação. Textos prontos foram expostos e lidos dentro e fora dos muros. Seu projeto oportunizou ensinar a crônica e valorizar os saberes locais.

Acesse a reportagem: "Reflexões sobre a prática: em verso e (muita) prosa"

 


Revista Na Ponta do Lápis n. 30Revista Na Ponta do Lápis
Ano XIII
Número 30
Dezembro de 2017

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