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Reflexões sobre a prática: em verso e (muita) prosa

Reflexões sobre a prática: em verso e (muita) prosa

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Autora: Camila Prado
16 Janeiro 2018

Estratégias inovadoras em sala de aula, cultura digital, saberes locais, batalha de poesia, Base Nacional Comum Curricular, escritores que nos pegam pelas mãos e nos levam a passear pelas linhas da literatura... O que não faltou foi prosa, nem poesia, no “Seminário Nacional Escrevendo o Futuro – Com a palavra, o professor-autor”, que se realizou nos dias 3 e 4 de outubro de 2017. Dez professores, de várias regiões do Brasil, apresentaram seus projetos voltados para o desenvolvimento da escrita. Foram diversos, e até inusitados, os gêneros textuais trabalhados com alunos da 7ª- série do Ensino Fundamental II ao 3º- ano do Ensino Médio. Cerca de duzentos profissionais que atuam no ensino de língua portuguesa – docentes de escolas públicas e de universidades, mediadores dos cursos on-line, colaboradores do Programa Escrevendo o Futuro, técnicos de secretarias de Educação, pesquisadores e profissionais de organizações do Terceiro Setor – estiveram ali para refletir sobre identidade, apropriação, empoderamento, inclusão e tantas outras forças da nossa língua-mãe. Haja inspiração!

“O professor é quem vem ao Seminário, mas traz junto uma escola inteira, uma secretaria inteira. Representamos professores do país todo, que fazem um trabalho brilhante. Então, minha emoção decorre disso.” Essa fala do professor José Gilson Lopes Franco, de Fortaleza, Ceará, nos dá a ideia de que as pessoas que ocuparam as cadeiras do auditório onde foi realizado o Seminário, na verdade, era uma multidão; ainda mais se levarmos em conta as 1.500 pessoas, aproximadamente, que assistiram ao evento em tempo real, pela página da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, no Facebook.

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Foi justamente sobre esta realidade – e virtualidade – que o professor doutor Marcelo El Khouri Buzato pensou em voz alta em sua palestra “Conhecimento e autoria na cultura digital”: “Como nós, que trabalhamos com educação, navegamos nessa ‘pororoca’?”, provocou ele, referindo-se à revolução digital que impacta de forma inexorável o ensino da leitura e da escrita. Segundo ele, antes a narrativa era o “grande barato”, privilegiava a sequência, a lógica causal, quando alguma coisa ocorre na narrativa, você quer saber por que ocorreu, qual foi a causa. E agora, estamos migrando da lógica causal para a lógica associativa, em que, para a aquisição de conhecimento, não prevalece a dedução e o raciocínio hipotético-dedutivo, mas a correlação entre as coisas. Os textos estão sendo reconfigurados. “Agora é Google!”, resumiu Buzato, que frisou a importância de equalizar essas diferentes lógicas na educação e o papel do professor como arquiteto nessa nova forma de construção do conhecimento.

Marcelo falou também sobre a mudança da natureza dos textos nesse cenário. Entre os vídeos que apresentou, estava o desenho animado Teletubbies, com trilha sonora de funk, diferente da original, e declarou: “Tudo isso é texto. Tudo está sujeito a algorítimo: todas as mídias e linguagens estão no mesmo tecido matemático”. A intensa produção de novas leituras e significados para conteúdos existentes, que ele identificou como remix e mashup, vai muito além do “copy e paste”. A concepção sobre autoria expande-se nesse contexto que conecta ideias, assuntos e pessoas de forma colaborativa.

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Um giro sobre as mesas

A ideia de colaboratividade, aliás, permeou os projetos dos professores que integraram a primeira mesa do evento. A professora Ana Virgínia Domingos de Oliveira, de Quixeramobim, Ceará, apresentou “Escrevendo crônicas: o despertar da partilha sob novos olhares”, trabalhou com a turma mais difícil e acabou conseguindo até um grupo de voluntários que auxiliavam os colegas na hora de escrever.

Já a professora Elizete Vilela de Faria Silva, de Divinópolis, Minas Gerais, para elaborar com os alun os uma carta aberta contra o preconceito, criou no momento da reescrita a troca de bilhetes orientadores entre os próprios alunos. Seu projeto “Escrevo- te estas bem traçadas linhas – Unindo nossas vozes contra o preconceito” contou com a invenção do “preconceitômetro”, para identificar e medir os tipos de preconceito que havia no grupo.

O professor José Gilson Lopes Franco, de Fortaleza, Ceará, teve de usar um chocalho para organizar os turnos de fala entre os estudantes, tamanha era a vontade dos alunos em participar da atividade de criação coletiva de uma sextilha durante o projeto “Literatura de cordel – Um caminho para o ensino da escrita”. Essa disposição de se envolver e compor junto culminou na criação de um grupo de cordelistas da escola que está se apresentando pela cidade afora.

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No projeto “Autores e atores nascem na sala de aula”, a professora Marta Regina Martins, de Monte Santo de Minas, Minas Gerais, também trabalhou a criação em conjunto, desde o texto teatral – gênero a princípio não previsto pela Olimpíada – até a montagem da peça, o que trouxe autoconfiança para os alunos mais retraídos.

Na segunda mesa, a professora Carolina Lobrigato, de São Paulo, São Paulo, apresentou o projeto “Vozes que encantam, comemoram e representam!”, em que trabalhou um gênero também não previsto na Olimpíada: o Spot radiofônico. Contou com a parceria do professor de informática educativa, o que possibilitou aos alunos gravarem os textos sobre os 60 anos da E.M.E.F. Altino Arantes, que foram difundidos na rádio da escola – a ALTINOMIX.

Assim como Carolina, o professor José Jilsemar da Silva, de Marcelino Vieira, Rio Grande do Norte, trabalhou o protagonismo com seus alunos para criar artigos de opinião no projeto “Motivo, tudo o que preciso”. Ele driblou a falta de computadores e criou um grupo de WhatsApp com os alunos para conseguir tocar as atividades.

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A professora Maira Andréa Leite da Silva, de Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, também inseriu o uso dos celulares durante seu projeto “Crônica: essa paixão que desvela o cotidiano”, pedindo que os alunos fotografassem cenas que os inspirassem a ativar a lupa sobre o mundo, que deve ser inerente ao olhar do cronista. Trabalhar as figuras de linguagem por meio de músicas foi uma estratégia que fez a diferença para que seus alunos apurassem a escrita.

A professora Rosa Maria Martins Pereira, de Rio Grande, Rio Grande do Sul, que integrou a terceira e última mesa do evento, também incentivou suas alunas a colocar a tal lupa de cronistas em ação: “Convidei-as a estranhar a Ilha da Torotama, onde leciono, e a observar as sirizeiras que ali vivem”. Com o trabalho, Rosa contribuiu para que a turma se apropriasse de suas raízes e valorizasse um saber local.

Num movimento inverso, a professora Quitéria Éden Batista Leite, de Pesqueira, Pernambuco, convidou os alunos para o que chamou de “Viajar sem sair do lugar”. Começou o trabalho compartilhando um texto em que ela resgatava a própria história com a leitura. A turma ficou tão empolgada com seu projeto de criação de resenhas literárias “Da leitura à escrita – Trilhas a serem percorridas” que, a certa altura, não havia mais livros disponíveis para retirar na biblioteca.

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Dando sequência à toada de projetos que empoderaram os alunos, Michele Mendes Rocha de Oliveira, de Tabatinga, Amazonas, compartilhou com a plateia seu “A argumentação que leva à estrada da cidadania”, que culminou em uma carta de solicitação ao prefeito pedindo a pavimentação da rua da escola. Os professores de História, Geografia, Biologia, Química e Sociologia, que foram parceiros no projeto, os alunos e a comunidade testemunharam a força concreta da palavra, pois agora já têm uma rua novinha passando em frente à escola.

 

De mãos dadas com os poetas

A força da palavra direta e reta chegou a seu ponto máximo, no Seminário, durante a apresentação do grupo Slam das Minas, que fez uma “Batalha de Poesia”. Poetas, sempre mulheres, declamam seus textos, em geral relacionados a questões de gênero e raça, e um grupo vota nos melhores versos. Uma batalha em que não há meias palavras, e a consciência e a crítica social estão na ponta da língua.

Também participou da programação o escritor Marcelino Freire, que em sua divertidíssima palestra “Como ler o que não está escrito” fez revelações sobre sua história com a leitura, a escrita e a literatura. Foram muitas e inspiradoras pérolas, como: “O problema é querer entender a poesia. É a partir do sentimento que o poeta nos pega pela mão. Assim, foram os poetas me pegando pelas mãos. Manuel Bandeira escreveu: ‘Eu faço versos como quem morre’. Eu não entendia o que ele estava dizendo. Mas minha tristeza entendia. Bandeira pegou minha mão e a deixou na de Cecília Meireles, que me deixou na mão de Mário de Andrade, que me deixou na de Solano Trindade, Augusto dos Anjos...”. “Por isso que eu não gosto de livro de autoajuda. Falam sobre o que eu já sei. Quero o que eu não sei.” “Li Metamorfose, do Kafka, depois eu era outra pessoa. A literatura nos acorda e nos conforta.”

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Para desfechar o evento, uma roda de conversa sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) com um time estrelado: Maria José Nóbrega, assessora pedagógica em programas de formação continuada de professores; Kátia Bräkling, consultora na elaboração de currículos na área de Língua Portuguesa; Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec); e Angela Dannemann, superintendente do Itaú Social. O consenso entre as profissionais é o ganho de se ter uma base comum, no entanto, apontaram diversos pontos frágeis da atual versão do documento, nas palavras de Ana Helena: “Ter uma base é um passo importante para a promoção da equidade, a redução das desigualdades educacionais e a efetivação do direito a uma educação pública, gratuita, laica, democrática e de qualidade para todos os brasileiros”.

Esse assunto é pauta extensa, que não caberia detalhar nestas páginas. Mas a era digital nos ampara com suas vantagens: vídeos com todo o conteúdo do Seminário estão disponíveis no site do Programa Escrevendo o Futuro. Como muito bem disse a professora Quitéria “Voltamos do Seminário com uma bagagem que transborda”. Levamos também a esperança que nos transmitiu Edi Fonseca, mestre de cerimônia do evento, despedindo-se da plateia com o poema “Canção do não tempo de lua”, de Mário Lago, que finda assim:

Criança é bonito? É
Mulher é bonito? É
A lua é bonito? É
A rosa é bonito? É
Pois criança vai ser homem porque a gente quer
A mulher vai ter seu homem porque a gente quer
Homem vai fazer seu sonho porque a gente quer
Vai ser tempo de ver lua e tirar rosa do pé.

 

Confira as sínteses dos dez projetos de escrita apresentados no Seminário:

A escrita do professor-autor

 

 


Revista Na Ponta do Lápis n. 30Revista Na Ponta do Lápis
Ano XIII
Número 30
Dezembro de 2017

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