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A necessidade de particularização do cotidiano

A necessidade de particularização do cotidiano

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Autor(a): Juliana Roquele Schoffen
04 Maio 2017

Os professores costumam se perguntar quais sugestões de reescrita são possíveis de se fazer nos textos de seus alunos quando esses textos já estão bem escritos. Com base na leitura das 125 crônicas semifinalistas da edição 2016 da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, me foi dada uma incumbência bastante difícil: encontrar nesses textos, já bastante qualificados, aspectos que ainda pudessem ser melhorados. Realmente, não foi uma tarefa fácil. A partir desse desafio, pontuei alguns aspectos recorrentes, nas crônicas que li, para estimular a reflexão sobre intervenções possíveis de serem feitas nos textos de seus alunos.

O que é mesmo uma crônica?

O gênero crônica é definido pelo cronista Antônio Prata como “uma espécie de lupa que você coloca em um assunto”1. A crônica é um olhar sobre o detalhe, sobre o instante, sobre algo singular que você amplia para ver mais de perto, como se olhasse através de uma lupa. E, para o cronista, “qualquer assunto que você olhar com uma lupa é interessante”. Não necessariamente, para escrever uma crônica, o autor precisa vivenciar um grande acontecimento. Pelo contrário, é sobre os acontecimentos frugais de todos os dias que se centram as melhores crônicas. É a particularização do cotidiano que se faz interessante a partir da visão do cronista, que mostra aos leitores como ele vê o mundo do outro lado de sua lupa.

As boas crônicas não são, se pensarmos bem, um relato minucioso, com uma descrição exaustiva do lugar, dos personagens e dos acontecimentos. Quando se passa muito tempo descrevendo o lugar em que a cena acontece, perde-se o flagrante, que é o mais interessante nesse gênero. Espera-se, na crônica, a particularização do cotidiano, ao narrar um acontecimento pontual e acrescentar a ele uma problematização.

Na crônica, é o olhar do escritor que interessa, não o olhar de toda a sociedade. Nesse sentido, tudo no texto precisa ser particularizado, a começar pela conjugação dos verbos. A impessoalização, na crônica, pode atrapalhar, porque pode levar o leitor a entender que as impressões relatadas ali são impressões gerais, de todos os que vivenciaram o fato narrado. E o que o leitor quer, na crônica, é ver a apreciação particular do autor; saber como ele – e só ele – viu, sentiu, enfrentou aquela situação específica.

Da mesma forma, podemos perceber que nas melhores crônicas o tempo predominante nos verbos costuma ser o passado. É preciso usar os verbos no pretérito para situar temporalmente a narrativa. Mesmo que a crônica esteja falando de algo que acontece todo dia, o autor narra no passado sua observação de um acontecimento singular.

 

Como posso falar do lugar onde vivo?

O tema proposto pela Olimpíada da Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro é “O lugar onde vivo”. Pude pe rceber em várias das crônicas que li (e também nos relatos de muitos professores com quem conversei) uma grande ansiedade pela necessidade de explicitar, no texto, o nome do lugar que estão retratando. Mas falar do lugar onde se vive não passa, necessariamente, por explicitar no texto o nome desse lugar. É a lupa do escritor que dá essa particularização, não o fato de o nome do lugar estar expresso no texto.

A crônica abaixo, finalista da edição de 2014 da Olimpíada, diz muito sobre o lugar onde a autora vive, ainda que o nome desse lugar não seja mencionado nenhuma vez. Nesse texto, pouco ou nada interessaria saber de que lugar específico ela está falando: as referências necessárias para a particularização do cotidiano dela para o leitor estão todas lá.

 

 
 

O último balé

O título do texto convida à leitura: o leitor quer descobrir que balé é esse. Criar um título interessante é uma boa estratégia para "fisgar" o leitor já no início da crônica

 
 

O sono ainda tomava o meu corpo, mas a obrigação já me punha de pé na incansável rotina de uma estudante que mal conseguia comandar o movimento das pernas que a levariam até o ponto de ônibus. Ponto de tortura, pois o vento congelante resfriava-me da cabeça aos pés. Pés que àquela altura já estavam como pedras de gelo.

 
 

Neste trecho, a repetição de palavras é utilizada como marca de autoria. Estilisticamente, a repetição funciona, mas a separação das orações com ponto final gera um fragmento de frase, que não causa uma boa impressão ao leitor. Ao invés do ponto final, a autora poderia ter escolhido usar travessões, virgulas ou ponto-e-vírgula.

Apesar do intenso frio, a atenção de meus pensamentos estava nas estrelas que ainda me faziam companhia em meio a tanta escuridão. Escuridão que num instante passou a ser iluminada pelo brilho dos faróis do ônibus escolar. Um alívio. Pronto. Entrei e me acomodei. Agora era só esperar.

A crônica é toda escrita no passado, fazendo uso, principalmente, de verbos no pretérito perfeito e no pretérito imperfeito.

Qual a diferença entre o uso do pretérito perfeito e o do pretérito imperfeito, em português? Saber essa diferença é bastante importante para se escrever uma boa crônica.

O pretérito imperfeito costuma ser usado para descrever a situação, o cenário, contar o que estava em curso quando o fato que efetivamente vai ser narrado aconteceu. O pretérito perfeito marca esse acontecimento, narra as ações que aconteceram e são o mote para a escrita da crônica.

A relação adequada entre o pretérito perfeito e o pretérito imperfeito constrói e costura a narrativa na crônica, situando o leitor e trazendo-o para junto do texto, num movimento de pegá-lo pela mão e transformá-lo em cumplice do flagrante que o autor está narrando. Observe como, neste texto, são usados o pretérito imperfeito, em verde, e o perfeito, em azul, e como a combinação entre eles tece a cena narrada.

Neste parágrafo, o movimento das árvores é comparado a um balé. A ideia é uma grande sacada, mas poderia ser mais desenvolvida para criar no leitor a expectativa de que esse seria o último balé, como o título anunciou. Talvez a autora pudesse se demorar mais, mostrando ao leitor por que, em meio a tantos morros, um em especial chamou a atenção dela.

O ônibus avançava e, enquanto eu olhava para o resto do mundo que aparecia no clarear do dia, uma impressionante paisagem cativou o meu olhar. Em meio a tantos morros, um aparentava ser palco onde várias bailarinas, com collants e tutus esverdeados, meias marrons como madeira e sapatilhas cor de terra dançavam, rodopiavam de um lado para outro. Todas numa sincronia perfeita: pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Uma coreografia majestosa, embalada por uma famosa sinfonia: Os ventos gelados.

A narração do corte da árvore parece rápido demais. A autora poderia esticar esse momento, dando mais tempo para que o leitor se compadecesse da bailarina.

Continuei observando a cena e, mais à frente, uma das bailarinas se destacava. Era uma talentosa jovem com seu parceiro, entrelaçados por todo o palco, sendo iluminados por um holofote que acabara de surgir por detrás das montanhas, a mais brilhante de todas as luzes: o Grande Astro. Pareciam alegres, até que um ser rústico, insensível, invadiu a apresentação e, como se não fosse nada, cortou as sapatilhas de uma bailarina, que caiu de tristeza. Nesse instante, das outras dançarinas começaram a voar lágrimas em forma de folhas e os pássaros que assoviavam “Beethoven” se calaram. O show acabara.

Neste trecho, ao descrever a dança da bailarina que se destacava, a autora cria a tensão e a expectativa necessárias para o que vai acontecer depois.

 

Há duas sinfonias apresentadas no texto: a dos ventos gelados e a dos pássaros. A autora poderia ter escolhido uma só e insistido nela, dando maior continuidade à história.

Na crônica, o final costuma apresentar uma reflexão sobre o episódio narrado, reflexão essa que dá sentido ao texto. Aqui, a autora faz o movimento de levantar a lupa e olhar para os lados, para ver se os companheiros de viagem estavam percebendo o mesmo que ela.

Para qualificar o texto final, a autora poderia ter optado por um vocabulário mais sofisticado.

Só então percebi o som daquele motor que interrompia meus pensamentos e indicava para alguns apenas mais um dia comum de trabalho. Olhei para os lados: alguns colegas dormiam, outros conversavam ou manuseavam seus materiais. Será que só os meus olhos perceberam aquilo? É, talvez outras pessoas também tenham visto, mas o que para mim foi uma bonita e triste ilusão para elas apenas a vista de mais um morro de eucaliptos.

O texto acima, como podemos ver, ainda poderia melhorar (como todo texto sempre pode), mas é um excelente exemplo de crônica sobre o lugar onde a autora vive. Assim como essa autora conseguiu particularizar e mostrar ao mundo o seu cotidiano, desejo que todos os nossos alunos possam vivenciar essa experiência transformadora através da escrita: contar ao mundo o que eles veem do outro lado da sua lupa.

 


Juliana Roquele Schoffen é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Rede de Ancoragem da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o futuro.

 


1. Antônio Prata. Entrevista ao Portal Escrevendo o Futuro, 9 de setembro de 2015. Disponível em www.escrevendoofuturo.org.br/conteudo/biblioteca/nossas-publicacoes/ revista/entrevistas/ artigo/1849/entrevista-antonio-prata. Acesso em 28 de novembro de 2016.

 


 

Revista Na Ponta do Lápis n. 28Revista Na Ponta do Lápis
Ano XIII
Número 28
Janeiro de 2017

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