10 maio 2018

Por Marina Almeida


Em palestra realizada na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), o escritor falou sobre a construção dos livros da série O lugar mais sombrio, suas escolhas narrativas, o trabalho com a memória pessoal na criação literária e as ameaças à democracia brasileira

 

No colégio de aplicação onde cursou o ensino médio, Milton Hatoum conta que teve a grande formação de sua vida: “Uma experiência, como todo jovem, poética, sentimental, política, amorosa, moral”. O autor revisita, 40 anos depois, essas memórias para construir seu romance A noite da espera (Cia das Letras, 2017). O livro é o primeiro da trilogia O lugar mais sombrio, que acompanha a trajetória do jovem Martim e seus amigos em seu processo de descoberta da vida e do mundo no Brasil autoritário e repressivo dos anos de 1960 e 1970. Seu processo de escrita, a construção dos personagens e as semelhanças entre o Brasil do regime militar e o de hoje foram algumas das questões abordadas pelo escritor em sua palestra na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), realizada dia 23 de abril, em São Paulo.

A narrativa foi pensada como um romance de formação, ou seja, a obra acompanha a trajetória de um indivíduo, seus anseios, sua busca por sentido na vida, e seu embate com uma sociedade desagregada. “A passagem desse jovem à vida adulta é problemática, é a história do desencanto. Em um certo ponto suas buscas não se completam. E há um momento de renúncia e melancolia”, explica Hatoum.

O autor conta que a trajetória dos três livros acompanha a sua própria: ele também se mudou para a capital federal aos 15 anos, estudou no Colégio de Aplicação da Universidade de Brasília (UnB), cursou arquitetura em São Paulo... Mas a passagem de sua experiência para a forma literária foi fruto de um longo processo de maturação. “A experiência é fundamental para qualquer escritor, sua infância, a juventude, mas só ela não basta, é preciso transformá-la em linguagem, senão eu escreveria minha biografia.”

Para Hatoum, a própria passagem do tempo é importante. “Uma das forças da literatura é o esquecimento, que depois é lembrado como imaginação, e não mais como lembrança, pontual e nítida”, diz. Ele ainda aconselha os aspirantes a sua profissão: “aos escritores, aos jovens, eu diria: fujam do presente e vivam, deixem o tempo passar primeiro. Porque não é só o tempo da experiência empírica, mas é o tempo da leitura, que é tão fundamental. A assimilação da leitura é tão importante quanto a vida”. E brinca: “por isso envelheci e escrevi poucos romances.”

 

Panorama de uma época

Nesse trabalho de memória e construção literária, o autor criou personagens que fogem do previsível ao trazerem em si muitas das contradições do período. Assim, o narrador do primeiro livro, Martim, não é um militante de esquerda, mas um jovem que não sabe bem o que está acontecendo e que se sente deslocado em meio a situação do país e a seu drama pessoal. “Optei por um personagem que era, na época, a maioria dos jovens brasileiros. Ele não está diretamente implicado no movimento estudantil, está um pouco perdido. Martim vive também uma solidão e uma melancolia que é fruto da separação traumática da mãe”, relata o autor. E, como se não bastasse, Martim ainda acaba se apaixonando por uma jovem militante que faz parte de seu grupo de teatro.

Os conflitos do país também fazem parte desse cenário de um momento de grande autoritarismo. E Brasília tem espaço central em A noite da espera. “Era uma cidade pequena, acanhada e com uma repressão enorme”, lembra Hatoum. “Não sou o Martim, longe de mim, minha família não tem nada a ver com a dele, mas a solidão dele nessa cidade, isso eu senti.” Para Hatoum, o projeto modernizador dos anos 1950 tinha em Brasília uma espécie de utopia, símbolo de um projeto de país, de um pensamento estético e social. O golpe militar de 1964, no entanto, transformou a cidade em epicentro da repressão. “Foram anos muito difíceis, como no Brasil todo, mas com a particularidade de Brasília ser a capital: o poder estava lá, os generais estavam lá”.

 

Linguagem adequada à temática

A escolha desse narrador acompanha a opção do autor de fugir de um romance ideológico. Como ele explica, do ponto de vista da ficção, tomar partido costuma empobrecer a narrativa, que nem sempre é capaz de dar conta da enorme complexidade das relações humanas. “A ideologia na literatura encaminha o leitor para algo previsível, mas o romance não precisa explicar as coisas, ele tem de colocar os problemas, provocar o leitor para dar a sua resposta ou deixá-lo em dúvida.”

No próprio grupo de amigos do narrador, Martim, encontramos diferentes perfis: os traidores, os desconfiados, os censores, os militantes, os indiferentes... “E isso aconteceu na vida das pessoas, há traições, há os que resistiram bravamente à tortura, há os que não resistiram e que é completamente humano também, há os que se desesperam, os estoicos, os ingênuos, alguns amigos sumiram, outros foram para a luta armada, alguns se alienaram”, relembra. “A vida é mais complexa que a literatura, mas nós não entendemos sua complexidade, por isso lemos romance”, aponta Hatoum. E conclui a respeito de seu livro: “mas da ética não abro mão. Eu não escreveria um romance simpático aos militares, por exemplo”.

Hatoum conta que para encontrar a voz do seu narrador, questão central do romance, pois constitui a própria forma da linguagem, ele busca fazer-se perguntas como: para quem essa voz fala, qual sua tonalidade e com quem se relaciona? Na série de livros que constituem O lugar mais sombrio, cartas, trechos de diários e anotações feitas por diferentes personagens participam da construção narrativa, criando uma variedade de tons e vozes. Essa forma fragmentada, explica, assemelha-se a vida desses narradores, que não tem uma continuidade. “Não havia rotina na vida do estudante de Brasília, porque amanhã havia uma invasão ou dez dias sem aulas, ou alguém havia sido assassinado e tinha manifestação. Eram sobressaltos o tempo todo. Nós não tínhamos uma continuidade na vida, ninguém tem, mas ali era mais entrecortado e isso foi determinante para eu escolher essa forma mais fragmentada, onde às vezes uma anotação de cinco linhas diz o que deveria ser dito naquele momento de apreensão, silêncio e violência.” Forma e conteúdo, portanto, se entrelaçam.

 

Brasil ontem e hoje

Na palestra, Hatoum contou que começou a trabalhar no projeto desse livro há dez anos e que as semelhanças entre o Brasil de 2018 e o do período militar de seu romance são uma triste coincidência. O autor avalia que os confrontos que vemos no país atualmente estavam apenas adormecidos nos últimos anos. “Essa massa de alienados brasileiros, fascista, se recusa a entender nosso passado, mas sente nostalgia de uma época bruta.” Sem saudosismo, ele diz que prefere viver no presente e cumpre seu papel como escritor, de repercutir o passado no presente.

“Nossa sociedade é muito dividida, e não é só uma divisão ideológica, mas uma divisão de classes. Depois de quase quatro séculos de escravidão e de várias ditaduras no século 20, é difícil pensar num país democrático e um pouco mais igualitário, ou menos desigual.” Sob aplausos, Hatoum encerrou sua fala questionando os rumos do país: “depois que esse general Villas Bôas ameaçou e chantageou a ministra Cármen Lúcia, o que esperar? Que democracia é esta?”