Menos plástico, mais amor

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14 dezembro 2018


Carol Bensimon

 

 

 

Eu provavelmente estava distraída quando os guardanapos das lanchonetes começaram a vir em invólucros de plástico. Você precisa abri-los antes de sujar as mãos, senão pode ser tarde e complicado demais. Isso me deixa irritada todas as vezes. Embora essa questão de natureza prática seja importantíssima, não é sobre ela que eu gostaria de falar. O que me intriga de fato é em que momento e por que nós começamos a exagerar tanto no uso das coisas plásticas (copos, pratos, mexedores, embalagens para um único canudo). Vou chamar o fenômeno de hiperassepsia. Será que alguém morreu por um guardanapo contaminado, e eu não fiquei sabendo?

E quanto ao copo descartável que acompanha a garrafa também descartável, nós precisamos mesmo dele? E do prato de plástico contendo um muffin que, por sua vez, já está devidamente protegido por uma redoma cujo rápido destino é o lixo? E o que dizer dos seis saquinhos de shoyu ofertados por um único temaki? Quando as tele-entregas japonesas me mandam um porte de gosma verde sem perguntar (não gosto de wasabi, eu diria, lamento), tenho pontadas no coração pensando em todo aquele plástico desperdiçado.

Talvez eu possa esboçar duas razões para esse excesso de itens destinados às lixeiras. Em primeiro lugar, em tempos de álcool gel, é natural que um dispensador de canudos nos pareça uma monstruosa colônia de germes. Melhor embalá-los um a um. Não custa lembrar, no entanto, que, nesse exato momento, na França, há um funcionário recebendo uma nota de cinco euros e depois entregando um sanduíche a alguém com aquelas mesmas mãos sem luvas. Como bons brasileiros que contraíram a hiperassepsia, a cena pode nos causar caretas de nojo, mas provavelmente revela mais sobre diferenças culturais e menos sobre reais riscos à saúde.

Em segundo lugar, e mais importante: o exagero dos plásticos parece estar ligado à tendência de querer agradar a qualquer custo. Pela natureza um tanto infantilizada dessa relação estabelecimento-cliente, talvez seja mais adequado usar a palavra mimar. Só isso pode explicar o que observo cotidianamente nos caixas de supermercado. Embora a maioria de nós seja perfeitamente capaz de pôr objetos dentro de uma sacola, nós temos empacotadores. E você já percebeu que esses empacotadores sãos instruídos a não colocar no mesmo saco uma pasta de dente e um pacote de biscoitos? A consequência disso é o uso de uma quantidade absurda de sacolas. Eu me pergunto que tipo de horror aconteceria caso esses itens, bem seguros dentro de suas respectivas embalagens, dividissem o mesmo espaço.

Na minha sacola de pano, sob os olhos atônitos do empacotador que acabo de dispensar, é claro que tudo vai misturado. Continuo viva.

 

In: Uma estranha na cidade, de Carol Bensimon, Editora Dubliense, 2016.

8 thoughts on “Menos plástico, mais amor

  1. Assunto de valor imensurável, precisamos refletir urgentemente sobre o consumismo de modo geral, mas com especial atenção acerca do plástico. A continuidade de nossa existência depende de uma nova postura!

  2. Parabéns, Carol. Se pessoa a pessoa tomasse atitudes como a sua (exemplo, o uso de sacola de pano para ir às compras), o mundo estaria, certamente, mudando à nossa volta. São atitudes simples assim que salvam o planeta. Eu procuro adotar algumas atitudes no cotidiano, como evitando sacolas plásticas nas compras, evitando copos e pratinhos plásticos em festas que organizo (adoto copos e pratinhos de acrílico, laváveis e, por isso, reutilizáveis) e, assim, penso que a ideia está se divulgando, por exemplo, entre as mães das crianças que atendo.

  3. Parabéns !!! sensacional esta crônica que aborda um tema “sine qua nom” nos tempos atuais. Traz a reflexão sobre nossas atitudes a respeito do nosso meio ambiente, pois é nos pequenos atos de cidadania que cuidamos do nosso planeta terra.

  4. Perfeito, Carol! “Mimar” os clientes. Essa relação tem cada vez mais alimentado o ego do consumidor e o bolso do produtor. Mas a vida continua com fome…

  5. Prezados editores,
    Amei a temática desenvolvida por essa crônica da maravilhosa escritora. Amo o estilo único de envolver-nos nas situações narrativas. Adoro sua escrita, bem como sou encantado pela linda pessoa: Carol Bensimon.
    Que venham muitos outros textos por aqui, bem como muitos outros Jabutis por lá!

  6. Nossa! gostei muito da crônica. O mundo seria bem diferente, se agíssemos assim, somos uma população que tem conhecimento sobre o assunto, porém, não tomamos iniciativa para que mudança aconteça. Infeslimente.

  7. Oi. Boa tarde adorei sua crônica esse assunto me interessa muito pois estou iniciando meu TCC sobre essa temática que cada dia mais se mostra prejudicial para todo tipo de vida na terra. Faço parte de um projeto que ensina educação ambiental para crianças no período da pré escola. Nossa é muito bom ver como eles procuram colocar em pratica o que aprende. Adorei o assunto e se puder me ajudar com algumas dicas ficarei grata.

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