Menina da boca roxa de amora

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Lavínia Soares Cardoso Bastos


Tecidas “nas cores de todas as saudades” são as lembranças da senhora Helena Rodrigues, 74 anos, que a escrita da estudante Lavínia Soares Cardoso Bastos compõe. Nestas memórias literárias, lemos com ternura cenas da menina crescida em meio a amor, amoras e livros, e sua jornada como professora em uma escola feita de latas.

 

Em momentos como este de vento frio e de céu avermelhado, rodeado por este conjunto de traços rosa, cinza e laranja, é só fechar os olhos que minha mente vai puxando esses fios coloridos e tecendo a maior de todas as saudades. Vejo uma menina pequena e esperta saltitando como um passarinho, pulando de galho em galho de uma amoreira carregadinha com a boca toda roxa de amoras. Consigo sentir, hoje, a doçura da amora e a voz grossa do pai que brincava: “Menina graciosa/ Da boca roxa de amora/ Vou contar para sua mãe/ Que você namora”. Mas, com ternura, a mãe da menina deixava as panelas no fogão e ia comer amoras com ela, regadas de belas histórias e do cheiro do frango refogado com banha de porco no fogão a lenha.

Nasci em Cachoeira, município de Alpinópolis, conhecida como Ventania. Minha infância foi simples, mas feliz. A vida naquele tempo era difícil, mas tinha o amor e o carinho dos meus pais e irmãos. Até hoje, sinto a ternura de minha mãe me levando para a cama e eu pedindo “Mãe, me cobre!”. Ela pegava a coberta que havia tecido no tear e me protegia do frio. Ela era áspera, pinicava e me fazia coçar. Hoje, sinto saudades, não da coberta, mas da ternura de minha mãe. Ela era pequenininha e ao mesmo tempo tão grande.

Nossa casa, um casarão antigo e grande com um alpendre onde meu pai dava ordens com seu vozeirão “Abre a porteira para as vacas passarem!”. “Os bezerros não!”. Eu aproveitava para balançar nela, mas meu pai gritava “Desce da porteira, se não ela sai do prumo!” E eu nunca sabia o que era o tal do prumo. Mas de braveza de pai entendia.

Nossos brinquedos eram bois de joás, bonecos de sabugos, restos de tecidos e cacos de vidros bordados. Ai! Como eram lindos! Fui alfabetizada por minha irmã, que tinha apenas o terceiro ano primário, e ninguém mais me segurou. Sumia com um livro nas mãos, correndo entre o capim-gordura. Meus cabelos e suas flores roxas bailavam ao som e ao frescor do vento da Ventania. Chegava no Ribeirão, deitava nas pedras ouvindo o barulho da água e lendo as mais belas histórias: João e Maria, A Bela Adormecida. Eu era a Princesa daquele bosque. Adormecia nas pedras, não por causa de uma maçã envenenada, mas embriagada pelas palavras dos livros.

Menina ainda, não entendia o fato de meu pai falar que mulher não precisava estudar, mas insisti e fui. Ventania era uma cidade linda e tranquila, poucas casas e alguns casarões com muitas portas e janelas. Cercada por bananeiras e engastada entre montanhas, rodeada por três palmeiras que eu dizia ser as guardiãs da cidade. Que lugarzinho lindo! Não tinha luz elétrica e nem água nas casas, apenas três pontos de torneiras onde as mulheres faziam filas com suas latas.

Em 1969, iniciei minha vida de professora no grupo Damásio, que na época era feito de latas. Hoje, quando chove, ouço aquele barulho da chuva batendo, e aquelas carinhas apavoradas dos pequenos. Consigo sentir aqueles abraços quentes de braços pequenininhos, buscando proteção. Também me lembro do sabor da sopa de osso, misturada com fubá. Trago seu sabor na boca, na memória e no coração. Única refeição de muitas daquelas crianças.

Hoje nossa cidadezinha continua engastada entre as montanhas, porém, essas se transformaram em montes de areia branca, pela ambição dos forasteiros e de seus filhos. As três palmeiras morreram abaladas pelas bombas das pedreiras. Não se vê mais crianças nas ruas pulando maré, não passam anel e não jogam bolinhas de gude. Em que gaveta do passado ficaram guardadas tantas brincadeiras inocentes?

Atualmente viajo muito, mas a viagem mais emocionante que faço é na infância. É só olhar para o céu iluminado, de fim de tarde, que minha alma se enche do cheiro do colo da minha mãe e do casarão onde nasci. Meus pais se foram e ele é apenas uma fotografia na parede. Tenho uma família maravilhosa: seis filhos, nove netos e uma saudade imensa daquela menininha da boca roxa de amora que, às vezes, vem saltitando de galho em galho, pula dentro do meu peito e bem no fundo de minha alma ouço a voz dela “Mãe, me cobre! Conta uma história?”. Ela vem e, ao pé do meu ouvido, conta a mais bela de todas as histórias.
 

*

Texto baseado na entrevista realizada com
Helena de Oliveira Freire Rodrigues, de 74 anos

 


Professora Rosa Maria Mendes de Lima

EE Dona Inda, Alpinópolis-MG

 

16 thoughts on “Menina da boca roxa de amora

  1. Emocionante história, me fez lembrar da minha infância, da manhã minha avó e dos tempos que subia não nos pés de amora, mas nos pés de pitanga, junto com minha tia da mesma idade que eu. Fomos criadas juntas… perfeita história, com detalhes tal, que vi essas cenas acontecerem!
    Bravo!!!!
    Moro em Capitólio MG, perto da “Ventania”, embora não conheça a cidade.

    1. Angelita você é parente do Dr.Adelmo Leonel?
      Eu sou Helena a menina da boca roxa de amora.
      Venha nos visitar,é tão perto.Traga um pouco de pitanga e juntaremos com minhas amoras e gare mos um delicioso suco de saudades.

  2. Nossa como não se emocionar com uma linda história dessa amei vou trabalhar com meus alunos . sei que vai ser gratificantes e eles irão amar assim como eu amei. parabéns pela belíssima história.

    1. Eu me emocionei muito com esta história. Chorei até. Fiz um vídeo narrando essas memórias. Gostaria muito que a autora do texto e a estudante pudesse assisti-lo como uma homenagem a elas.

      1. Eu gostaria muito que a autora do texto e a estudante pudessem assistir ao vídeo que eu fiz narrando esta história.
        Estou fazendo narração de todos os textos da Olimpíada. Essas viagens literárias têm sido experiências inesquecíveis para mim. Quem puder me apoiar no canal, agradeço imensamente. Alguns dos meus projetos: Do lixo ao livro; Uma história, um reencontro, Clubes de Leitura Bilíngue; Narrações de contos; Biblioteca móvel comunitária, etc.
        Agradeço à Olimpíada de Língua Portuguesa por este projeto maravilhoso.
        Grande abraço,
        Shirley
        Shirley Parreiras

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