Livros, vídeos e músicas: indicações para relaxar, aprender e se emocionar nas férias escolares

Marina Almeida       13 Julho 2022


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Confira nossa seleção especial de sugestões culturais para aproveitar durante o mês de julho. Dentre as recomendações, lançamentos recentes da literatura e do mundo das artes, que podem contribuir para ampliar nosso repertório cultural, refletir sobre temas complexos, como racismo e violência, e nos tocar com suas histórias, ritmos e sensibilidade.


Audiovisual

  Exposição virtual “O Ritmo de Gil”:

Celebrando os 80 anos de Gilberto Gil, o museu virtual Google Arts & Culture lança a mostra digital em homenagem à obra do cantor e compositor. Esta é a primeira vez que um artista brasileiro vivo ganha uma retrospectiva na plataforma. A página reúne um acervo com mais de 40 mil imagens e 900 gravações históricas, como, por exemplo, um disco de 1982, gravado em Nova York, que nunca foi lançado, mas que foi recuperado e agora está disponível.

Dividida em três partes, a mostra traz um amplo panorama da trajetória do artista: suas músicas e composições, suas parcerias e inspirações musicais e a sua biografia, com fotos e relatos. O conteúdo inclui um plano de aula que pode ser baixado gratuitamente e utilizado em sala de aula. As influências africanas, os variados estilos musicais, a poesia de suas músicas e até sua atuação política no Ministério da Cultura são abordados no material. Veja aqui.


   “AmarElo Prisma”, de Emicida:

O álbum “AmarElo”, de Emicida, lançado em 2019, foi construído com base em quatro pilares: paz, clareza, coragem e compaixão. Nos anos seguintes, como parte desse projeto, o rapper lançou um documentário, disponível na Netflix, e uma série de vídeos e podcasts, o “AmarElo Prisma”.

Composto por 4 episódios em vídeo e 4 podcasts, o “AmarElo Prisma” tem como base os pilares que inspiraram o álbum. A primeira das quatro partes do projeto aborda a temática da “Paz” para falar dos cuidados com o corpo e alimentação saudável; a segunda parte, intitulada “Clareza”, trata de questões de saúde mental; o episódio “Compaixão” vai trazer a discussão sobre empatia e capacidade de conexão com o outro; já “Coragem”, a última parte do projeto, vai falar sobre o coração e o poder de criar uma nova história, apesar do medo.

Os episódios partem de narrativas pessoais de Emicida e de outros entrevistados para traçar estratégias coletivas de ação, com propostas que possam alcançar pessoas de regiões periféricas, negras e mulheres. Entre os entrevistados, participam nomes como o poeta Sérgio Vaz, o padre Júlio Lancelotti e a rapper Sharylaine. Acesse os episódios aqui.


Livros

  • Cartas a uma negra, de Françoise Ega (Todavia, 2021):

Nascida na Martinica, Françoise Ega vivia e trabalhava como doméstica na França quando leu uma reportagem sobre a escrita de Carolina Maria de Jesus. A identificação foi imediata. Françoise, que também lutava para escrever seus livros entre o trabalho em casas de família e o cuidado com os filhos, passou a escrever cartas para a autora brasileira. Nesses relatos, que nunca foram enviados, ela fala sobre as condições de trabalho das mulheres imigrantes negras na França, seu cotidiano, visão política e pequenas alegrias.

Nas dificuldades e momentos de desânimo, ela lembra do exemplo de Carolina e mostra a importância de poder se reconhecer em suas referências, como no trecho abaixo:

Se você não tivesse se tornado minha inspiração, eu já teria atirado tudo para o alto dizendo: “De que adianta escrever?”. Fecho uma janela em meus pensamentos, outra se abre, e a vejo curvada, na favela, escrevendo no papel que tinha catado no lixo. Eu, que tenho a imensa felicidade de ter um caderno, um abajur e uma música bem baixinha que sai do rádio, acho que seria covardia largar tudo porque uma criança rasgou as folhas do caderno. Só me resta recomeçar.

As duas autoras nunca se encontraram, nem puderam ler os livros uma da outra – a obra de Françoise Ega foi publicada após a morte de ambas – mas, de alguma forma, a literatura permitiu que se (re)conhecessem pelas letras. Uma prova da força da palavra escrita. Confira também a sequência didática Escritas de si em diálogo: um trabalho com o gênero diário, publicada em nosso Portal, que apresenta orientações e sugestões de leituras e atividades inspiradas nas obras das escritoras.

  • Cartas para minha avó, de Djamila Ribeiro (Companhia das Letras, 2021):

É também no formato de cartas imaginadas a sua avó, Antônia, que Djamila revisita episódios de sua infância e adolescência até os dias atuais. Partindo da lembrança amorosa de sua avó, a autora fala sobre o papel das mulheres de sua família para sua formação, lembra momentos difíceis, como a perda dos pais, e as agressões por que passou como mulher negra no Brasil. Mas ela também conta sobre pequenas cenas do cotidiano, amores, amizades, músicas, leituras e experiências profissionais.

Numa narrativa mais pessoal e intimista que a de obras anteriores, Djamila, uma das principais vozes do ativismo negro no Brasil, fala também sobre a importância da ancestralidade e de guardar a memória das pessoas negras que vieram antes de nós, como no trecho abaixo:

Nunca consegui perguntar a você como foi criar sete filhos com meu avô. Como foi ser a mãe da Edna, do João, do José Roberto, da Erani Benedita, do Avelino, do Edson e do Edmilson. Como foi ser a esposa de José dos Santos. Como você se sentiu ao construir uma boa casa depois de uma vida inteira trabalhando fora, em casa de família. Como foi ser a matriarca de uma das poucas famílias negras de São Dimas, bairro que depois se tornaria de classe média. Como você lidava com o racismo. Será que pensava sobre isso ou foi forçada a naturalizá-lo? Eu não tive tempo de lhe perguntar nada disso. Quais eram os seus sonhos, seus medos.

  • Poesia Completa, de Maya Angelou (Astral, 2020):

Com tradução de Lubi Prates, Poesia Completa eterniza em língua portuguesa a voz de uma das mulheres mais influentes da cultura e da literatura afro-americana. Reunindo toda a obra poética de Maya Angelou, o livro permite que leitoras e leitores conheçam as diversas facetas dessa poeta atriz, cantora, diretora de cinema e ativista pelos direitos dos negros. Indicada ao prêmio Pulitzer de literatura e ganhadora de três Grammy com álbuns de poesia falada, Maya escreve sobre a condição da pessoa negra, em especial a da mulher, sobre o machismo que se perpetua nas diversas camadas sociais, sobre a injustiça e a desigualdade. Mas sua obra fala também de amor, transformações, esperança e da construção de um mundo novo.

Saindo das cabanas da vergonha da história

Eu me levanto

De um passado enraizado na dor

Eu me levanto

Sou um oceano negro, vasto e pulsante,

Crescendo e jorrando eu carrego a maré.

 

Abandonando as noites de terror e medo

Eu me levanto

Para um amanhecer maravilhosamente claro

Eu me levanto

Trazendo as dádivas que meus ancestrais me deram,

Eu sou o sonho e a esperança dos escravos.

Eu me levanto

Eu me levanto

Eu me levanto.

 

(trecho do poema “Ainda assim eu me levanto”)

  • Corpo desfeito, de Jarid Arraes (Alfaguara, 2022):

Autora de poemas, cordéis e contos, Jarid Arraes estreia no romance com uma narrativa sobre o abuso físico e psicológico de crianças. A história, que se passa no interior do Ceará, mostra como as violências podem se perpetuar de uma geração a outra. O machismo, a manipulação da fé, a precarização do trabalho e a vulnerabilidade infantil estão entre os temas abordados com sua prosa ágil e impactante. Protagonizado por personagens femininas, uma característica da autora, a história fala sobre como as marcas da infância são construídas, mas também sobre como é possível lidar com elas, o poder do primeiro amor e a força necessária para superar os obstáculos.

Sem roupa e de joelhos, abaixei a cabeça para não encarar a estátua. Uma das velas estava derretida pela metade, mas a pequena chama se debatia em reflexos na parede, como se vivesse por mim o medo que meu corpo não podia ganir.

(trecho do romance“Corpo desfeito”)

5 thoughts on “Livros, vídeos e músicas: indicações para relaxar, aprender e se emocionar nas férias escolares

  1. Sugestões maravilhosas! Que muito contribuirá para a ampliação da nossa formação cultural. Continuem sempre nos brindando com sugestões maravilhosas. Obrigada!

    1. Também achei, Marileide. Sugestões que só acrescentam em nossa formação cidadã! Parabéns aos envolvidos nessa ARTE do conhecimento, do compartilhamento de informações assertivas à sociedade em geral. Grata!

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