Literatura indígena: outros livros, outras histórias do Brasil

Marina Almeida

Por muito tempo, tudo que sabíamos sobre os indígenas no Brasil – seu modo de vida e seus mitos – era coletado e publicado por antropólogos e folcloristas. Mas, sobretudo a partir dos anos 1990, os próprios indígenas passaram a escrever também suas histórias. A literatura que eles produzem permite que os leitores de diferentes regiões do país possam conhecer mais de seus costumes, trajetórias, contos e tradições. “É um direito dos alunos conhecer essas culturas, é um reconhecimento de quem somos como brasileiros. E nos ajuda a entender que não há uma só língua indígena, nem uma só cultura”, aponta Devair Fiorotti, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR). 

Apesar disso, mais de dez anos após a promulgação da lei 11.645/2008, que determina o ensino de história e cultura indígena nas escolas, incluir essas questões no currículo ainda é um desafio. Em grande parte, por desconhecimento dos próprios professores, acreditam os pesquisadores entrevistados. A boa notícia é que mais obras e livros de apoio têm sido publicados e há muito material disponível na internet para ajudar o trabalho docente (veja sugestões ao final do texto).

Tradição

Aracruz (ES) - Na região conhecida como Areal, jovens índios tupinikim dançam - Agência Brasil

Ainda que as publicações de autores indígenas sejam recentes, essa literatura existe muito antes de ser colocada no papel e transformada em livro, como explica Devair. “Literatura é muito associada à palavra escrita, mas desde Homero há uma presença da oralidade nos textos. Nas culturas indígenas também: desde sempre elas produzem artes verbais, literatura oral.” Dessa forma, poemas, cantos, preces e versos produzidos também são literatura indígena, mesmo que ainda que não tenham sido registrados por escrito. 

Janice Thiél, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ainda lembra que, em geral, essas são tradições muito performáticas, podendo envolver o canto e a dança, e que alguns desses elementos podem se perder ao serem passados para o papel. “Por isso é comum que os livros venham acompanhados de vídeos com a gravação das músicas, ou crianças falando, por exemplo”, diz.

Artes verbais

Há 13 anos o professor Devair trabalha com o registro das artes verbais dos indígenas de três etnias de Roraima: os macuxi, taurepang e wapixana. O trabalho envolve a coleta do material, seu registro, transcrição, a conferência de fidelidade com os indígenas e, finalmente, o estabelecimento do texto. 

No site do projeto Panton Pia’ – que significa junto, ao lado, no começo da história – há muito material sobre a literatura e a vida dos indígenas daquela região, como fotos, vídeos com registros de narrativa e cantos, letras dos poemas, sua tradução, gravação das músicas e também partituras. Ao final, ainda é possível baixar pesquisas acadêmicas, artigos, matérias divulgadas na imprensa e um livro do próprio Devair sobre o trabalho. 

“Trazemos entrevistas na íntegra com os anciões das aldeias sobre sua história de vida. A partir delas é possível trabalhar, por exemplo, o conceito do que é ser indígena hoje. Um dos entrevistados, o seu Manuel, é evangélico, mas ele fala a língua de seu povo, conhece sua cultura, não deixa de ser indígena”, explica o professor. As possibilidades de uso do material são muitas: ler os cantos, ouvir a entrevista de um indígena da etnia, pedir para algum aluno músico tocar a melodia a partir da partitura. Com o apoio dos textos teóricos, o professor pode discutir com os alunos o processo de repetição das frases e estruturas, por exemplo, sua relação com a dança, a coreografia e a pintura corporal. 

Diversidade de povos

“Para trabalhar com literatura indígena na escola é preciso reconhecer a diferença: entender que se trata de uma outra cultura e não tentar enquadrá-la nos nossos conceitos”, aponta Devair. Também é fundamental considerar a diversidade dos indígenas brasileiros: segundo o Censo de 2010, o país possui 305 etnias, que falam 274 línguas diferentes. 

A partir desse reconhecimento da diferença e da diversidade existente entre os vários grupos indígenas, o primeiro passo ao escolher um texto para trabalhar é pesquisar sobre aquela cultura: onde vivem esses indígenas, que língua falam, qual sua história, seus costumes, sua visão de mundo, sua arte. “No site do ISA, por exemplo, professores e alunos podem ter acesso fácil a um pequeno resumo com essas informações. A partir disso é que conseguimos nos aproximar da cultura e da visão de mundo daquele povo”, diz o pesquisador. “O que não dá é para trazer a história do jabuti, por exemplo, sem nenhuma outra informação, sem dizer a origem desse material e as características daquele povo.” 

A professora Janice também ressalta a importância dessa contextualização sobre a etnia a que a obra escolhida pertence. “Os alunos podem pesquisar sobre as obras, fazer relações com outros textos já estudados, buscar o que esta obra traz de diferente em relação a outras, o que provoca neles...” 

Outros pontos a serem observados, segundo ela, são o gênero do livro, o idioma em que foi escrito – se em português, se é uma tradução ou um livro bilíngue – e a voz do autor (como ele fala e para quem). “Os alunos precisam entender que o gênero literário também é cultural”, explica. 

Contrapor duas obras escritas a partir de diferentes perspectivas e momentos históricos também pode trazer boas discussões para a sala de aula, acredita Janice. “Se o professor está trabalhando um livro como Iracema, de José de Alencar, por exemplo, pode ser um bom momento para sugerir também a leitura da obra de um indígena brasileiro. A partir dessa comparação pode ser mais fácil entender os diferentes contextos: o indígena que escreve como forma de resistência à colonização e afirmação de sua voz e sua história, e o autor que idealiza sua figura”. Ela lembra que, na busca por constituir uma identidade nacional, o romantismo retratou o indígena ou como pacífico e submisso ao colonizador ou como um inimigo a ser combatido. Trabalhar essa comparação pode quebrar os estereótipos, além de levar o aluno a refletir sobre a construção de identidades pelo discurso. 

 

Mitos indígenas

Janice ressalta a importância da ligação dos mitos com os ancestrais e com o sagrado para os indígenas, muito diferente da forma como lemos os mitos gregos hoje, por exemplo. E é importante que os alunos possam refletir sobre esse significado: “para o indígena, essas histórias são verdadeiras, não são simplesmente ficção. Trata-se de um gênero diferenciado de literatura, que pode fazer parte de rituais, inclusive, mas também é colocado nos livros para nós conhecermos.” 

Ela acredita que a comparação com mitos gregos ou nórdicos, muito presentes na literatura e em filmes, pode ser um caminho para se aproximar dos mitos indígenas, desde que o professor não deixe de apontar as diferenças. “Podemos pegar um mito indígena sobre a criação do fogo e o mito grego do fogo trazido por Prometeu, por exemplo. Após as duas leituras, pode ser mais fácil perceber como os indígenas vão utilizar mais elementos da natureza em suas histórias...” A própria interpretação desses mitos pode ser desafiadora, já que parte de uma realidade e de visões de mundo muito diferentes das nossas. “Por isso é tão importante pesquisar e coletar elementos da cultura que possam apoiar essa interpretação”, diz. 

Por conta dessas especificidades, Janice acredita que é importante que os professores passem por um letramento cultural para trabalhar o tema, seja por meios de cursos ou oficinas. “No caso das ilustrações, por exemplo: quando são utilizados os grafismos tradicionais do povo, isso pode indicar que aquele texto possui também uma autoria coletiva em sua origem”.

 

Jovens

Apesar de as editoras verem no público infantojuvenil um grande nicho para a publicação desses autores, os entrevistados apontam que é um equívoco associar a literatura indígena apenas a esse público. “Na cultura indígena, essas histórias são contadas para todos. Além disso, elas têm uma complexidade que nós, ocidentais, não acessamos facilmente”, explica Devair. 
Para Janice, o olhar que o professor traz sobre a obra pode fazer a diferença. “Se ele apresenta aqueles livros dizendo que não são só para crianças e que têm elementos importantes para conhecer, os alunos mais velhos também gostam. Trabalho com algumas dessas obras com os alunos de graduação e eles se interessam muito”.

Há também muitas publicações voltadas para os alunos mais velhos. Entre outras, Janice cita O banquete dos deuses, de Daniel Munduruku, que reúne ensaios e contos, e A terra de mil povos, de Kaká Werá Jecupé, que traz discussões sobre o que é ser indígena, dados sobre a vida e os costumes dos indígenas brasileiros, mitos de origem e uma cronologia da história do Brasil desde 1500 a partir da perspectiva indígena. 

Com os alunos mais velhos, a orientação do professor também é fundamental num primeiro contato com os textos. “O professor deve evitar trazer sua interpretação e opinião antes da leitura do aluno, além de encaminhar o debate de modo a não reforçar estereótipos”, conta Janice. Segundo ela, o imaginário sobre os indígenas brasileiros ainda é muito pautado no que se escreveu sobre eles nos textos do descobrimento e é importante que o aluno possa entender que eles não são culturas do passado. “Além disso, muitos não veem o indígena urbano, o que vai para a universidade, mas que também estão presentes e contribuem para o Brasil hoje.”

Trazer o tema para a sala de aula é ainda uma forma de reparação histórica. “Nós, professores, precisamos entender e aceitar que o Brasil tem múltiplas culturas, que aqui se falam diversas línguas e que nós temos uma dívida com os indígenas. O povo brasileiro, com sua política, causou um etnocídio: os indígenas passaram de 5 milhões para 100 mil na década de 1970, falavam 1800 línguas e hoje há pouco mais de 200. Eles vivem um processo de retomada do que poderiam ter sido”, defende Devair.

 

Para começar a pesquisa...

Há muitos livros indígenas voltados para diversas séries da educação básica, e com a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os livros didáticos devem se adaptar para trazer conteúdo sobre a temática. Na busca por materiais, a internet também pode ser de grande auxílio. No entanto, vale fazer uma ressalva importante colocada pela professora Graça Graúna, da Universidade de Pernambuco, em artigo sobre o tema: há uma série de páginas na internet que folclorizam a figura do indígena e não representam seu pensamento, além de sites que exploram sexualmente a imagem das mulheres indígenas.

Selecionamos aqui algumas páginas confiáveis citadas pelos pesquisadores consultados nesta reportagem:

 

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