Minha itinerância pelos caminhos da leitura e escrita

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21 junho 2018

O curso on-line Caminhos da Escrita propõe aos professores que escrevam um relato contando um pouco sobre suas primeiras lembranças com a leitura e escrita, recuperando momentos, livros e experiências marcantes. Confira abaixo um desses relatos.

Minha itinerância pelos caminhos da leitura e escrita 

Ildene Carmem Paiva Fernandes
Bonito (BA)

 

Minha relação com a leitura e a escrita começou bem cedo. Minha mãe, toda vaidosa, costumava dizer que quando fui para a escola já conhecia as letras. Isso configurava uma aprendizagem somada aos meus sete anos de idade, tempo de ingressar na 1ª série do Ensino Fundamental.

Maria Vitória, este era o nome da professora, a admirei pela beleza das unhas, lixadas e limpinhas. Gostei dela de imediato. Passara em casa um dia à tardinha para avisar que eu já estava grande e precisava ir à escola. Prédio escolar, carteira, livros como hoje em dia, não tinha! Mas merenda, ah! Esta tinha! Era feita na casa de uma senhora bem longe da escola. Só os alunos responsáveis e obedientes tinham o privilégio de buscá-la, sempre em duplas. 

O tempo de estudar era centrado na memorização e traço das letras, não tenho lembranças de leitura de livros pela professora. Mas lembro das histórias que ela contava: príncipes, princesas, castelos, carruagens, fadas e bruxas povoavam meu repertório de leitora ouvinte. Assim seguimos até o instante que já podíamos juntar palavras, frases. Fomos para a primeira série adiantada. A partir dessa conquista a autonomia para a leitura foi aumentando. Sexta-feira era o dia de mostramos o quanto estávamos lendo, situação que acontecia sempre às sextas-feiras depois da merenda.

 

A grande mudança desse período foi estudar em um prédio escolar, tendo uma professora diferente a cada ano, porque ler, escrever, responder tabuada era uma prática de ensino corriqueira da escola. Lembro da chegada das datas comemorativas, quando tínhamos a obrigação de deixarmos a escola bonita, correndo atrás de imagens de mães, pais, crianças, e pensar no tipo e cor da letra, para um cartaz que orgulhosamente levava com todo cuidado para entregar a professora. Hoje sei que esta era a única prática social de leitura e escrita que fazia sentido para mim, por isso não a esqueci. Guardo na memória inclusive a cola feita com uma espécie de polvilho, que quando manchava as imagens me deixava muito triste, pois eu não queria decepcionar a professora.

Assim atravessei os primeiros anos do Ensino Fundamental. Ao entrar nos anos finais, tempo de novos interesses, o desejo pela leitura já permeava outros desejos; fui apresentada às fotonovelas, me apaixonava pelos personagens, as tramas, etc. E assim fui seguindo no meu caminho de estudante e de menina romântica, que sonhava por horas a fio, lendo os romances, Júlia, Bianca e Sabrina. Neste período, conheci meu primeiro namorado, e com ele veio o gosto pela literatura brasileira.

Ao tentar recitar os sonetos de Vinicius eu ia imprimindo em cada verso todo o meu sentimento amoroso. Logo em seguida, recebi de presente o romance Mar Morto, de Jorge Amado, que tive de ler e registrar em uma ficha a síntese de toda a trama. Não perdi o desejo da leitura por causa disso. Muito pelo contrário, me instigou a ler mais. Li outros clássicos, a maioria das minhas colegas liam também, não tínhamos TV, logo todo o tempo livre usávamos para ler e comentar sobre leituras. Ou ouvir música. Sem dúvida foram as melhores leituras da minha vida.

Concluir o Ensino Médio, casar..., ter filhos foi o grande projeto da minha vida, mas também tempos de muitos desencontros. O casamento se foi, as crias ficaram.  Retornei aos palcos da escola, Universidade Federal da Bahia, curso de Pedagogia no ano de 2001, foi a porta de retorno para esse universo que me move: estudar e aprender.  Foi o lugar da redescoberta da leitura e da escrita frente às práticas sociais reais. Autores circulavam da Antropologia à Língua Portuguesa. Tinha que me elevar à condição de acadêmica, e para fazer jus a essa nova realidade vivida.

Foram muitos os percalços, trabalhar quarenta horas semanais, de segunda a sexta pegar um carro para ir até a faculdade na cidade vizinha. A distância entre as duas cidades e um carro que não avançava muito devido ao estado ruim da estrada serviam para repassar o assunto que seria apresentado em um seminário. Resumos, fichamentos, artigos qualificavam todo o caminho para me tornar pedagoga.

Mais tarde pós-graduação em Psicopedagogia e graduação em Letras foram outros tempos rumo ao conhecimento e a certeza do quanto preciso conhecer. Hoje a minha rotina é voltada para estudar e estudar. Leio literatura bem menos do quanto gostaria, vivo as voltas com os textos técnicos devido as demandas da minha atual função frente à formação de professores. Porém, guardarei na memória os bons tempos em que a leitura foi minha companheira para sonhar e acreditar...

3 thoughts on “Minha itinerância pelos caminhos da leitura e escrita

  1. A leitura é algo realmente mágico, minha infância foi repleta de histórias de folclore, contos de fadas, entre outros, quero levar esta magia a diante também!

  2. Linda a sua história Ildene. Dou Graças a Deus por nunca ser tarde para recomeçar. Acredito que quando isso acontece, estamos mais dispostas a aprender.
    Pelo menos, isso acontece comigo.

  3. Ler é mágico, é incriável! Lembro-me que na minha infância ficava encantada com o meu pai recitando cordéis que havia lido ou ouvido na sua adolescência e os tinha na memória como a gente tem a música preferida. Quando comecei a estudar já lia. durantes os meus anos como aluna no ensino fundamental, no médio, graduação e pós muitas vezes tive que ler apenas para fazer trabalhos, mas isso nunca me frustrou e nem diminuiu o meu amor por uma boa leitura.

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