Eu, a leitura e a escrita

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail
21 março 2018

O curso on-line Caminhos da Escrita propõe aos professores que escrevam um relato contando um pouco sobre suas primeiras lembranças com a leitura e escrita, recuperando momentos, livros e experiências marcantes. Confira abaixo um desses relatos.

Sobre leituras, prazeres, direitos e deveres

Vanusia Amorim Pereira dos Santos
Maceió (AL)

Minhas primeiras experiências com leitura e escrita foram em casa. Aprendi a ler relativamente cedo, aos cinco anos, vendo mamãe ensinar minha irmã mais velha. Cedo também foi meu contato com a leitura, os livros e a literatura. Meus pais, avós, tios, compravam livros diversos, até de boas maneiras. E nós líamos tudo. Fui uma adolescente que tinha assinatura de revistas e jornais e meu tio se encarregava de comprar os livros de literatura. Aos dezoito anos já tinha lido muitos clássicos da literatura brasileira e estrangeira. Alguns, à época, até meio incompreensíveis para mim. Memórias do Cárcere, do Graça; Grande Sertão: Veredas, do Rosa. Aliás, esse último releio de quando em quando, pois sempre acho que não dei conta.

Tem aqueles inesquecíveis, como A boa terra, de Pearl S. Buck. Li aos 15 anos. Já tinha ouvido falar da China e sabia localizá-la no mapa mundi, mas tenho para mim que só conheci a China mesmo naquele livro. Tem os amores da vida toda: Calvino, Oscar Wilde, Monteiro Lobato. O Bruxo Machado só fui gostar na idade adulta; Clarice ainda estou aprendendo a fruir. Aproximei-me muito da obra de Graciliano depois que comecei a trabalhar em Palmeira dos Índios. Ir à casa onde ele morou, sentar nos bancos da igreja onde ele escreveu São Bernardo, andar pelas ruas narradas em Caetés... contagia. Quem nunca se compadeceu com Fabiano? Quem nunca chorou a morte da Baleia? Quem nunca quis nomear os filhos de Sinha Vitória e lhes dar aquele colchão de penas? Quem nunca se angustiou com Luís da Silva? Quem nunca se sentiu sozinho e perdido como Paulo Honório? Nunca? Leia Graciliano. De alguma maneira, ele sempre nos representa.

Ando apaixonada pela obra do baiano Antônio Torres, intriga-me aquele pai d’Essa Terra. A trilogia, aliás, serve-me de motivo para tese de doutoramento. No mestrado, debrucei-me sobre a obra Dois Irmãos, do Milton Hatoum. Que Norte sem fronteiras e maravilhoso. Gosto de passear pela nossa literatura. Uns dizem que ela é fraca e pobre, se comparada às grandes. Não comparo. Ela é nossa. Nos espelha. Nos dá voz. Precisamos nos apoderar dela. Conhecer as obras dos nossos escritores o quanto for possível. Lembro aqui o Velho Veríssimo, em Solo de Clarineta, a literatura é uma lâmpada que devemos deixar sempre acesa para que ela faça “luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.”

Sempre gostei mais de ler. A escrita apenas tinha espaço nos bancos escolares e gosto em produzir textos só tomei na faculdade, nas aulas de literatura, quando tinha que escrever sobre livros ou artigos de crítica literária. Enlouquecia com os ensaios do meu professor-mestre-para-a-vida-toda, Roberto Sarmento. Escrevia sonhando que um dia iria fazer análises literárias iguais às dele. Perfeitas. Continuo sonhando. Risos.

Gosto de escrever sobre livros. Contudo, minha realização maior é lê-los e, talvez por isso, no meu cotidiano em sala de aula, incentive mais a leitura, do que propriamente a escrita – um dos motivos para fazer este curso, inclusive, é porque quero dar mais espaço para a escrita nas aulas. Minha balança pesa mais para a leitura e a oralidade. Talvez porque os alunos chegam para mim com pouca competência leitora e me sinto no dever de recuperar as leituras perdidas.

Não tenho experiências dolorosas com a leitura, ainda que me lembre das dificuldades em entender a prosa Machadiana na adolescência. Porém, até isso foi bom, me fez entender, por exemplo, que, no ensino médio, é melhor começar com os contos do Bruxo do Cosme Velho. Tem dado certo com meus alunos.

Quero concluir lembrando a todos que a figura do professor é a principal referência dos nossos alunos em termos de leitura – informação corroborada pelas últimas pesquisas sobre leitura no Brasil. Isso significa que nós, senão por prazer, mas por obrigação profissional, temos que ser leitores competentes, leitores plenos. Parafraseando Failla (2015), precisamos garantir o direito à leitura literária aos mais de 20 milhões de alunos brasileiros que dizem não gostar de ler. E sabemos: não gostam de ler porque não foram motivados, não foram ensinados. Leitura se ensina. Devemos, nós professores, ensinar a leitura literária: precisamos, nós professores, democratizar a experiência da leitura. É, portanto, responsabilidade docente promover nossa literatura e assegurar a todos o direito de ser leitor pleno e consequentemente indivíduos atuantes no mundo em que vivem. O contrário não faz sentido. É o que eu penso.

Eu, a leitura e a escrita

Ana Maria Lucena Rodrigues 
Manaus (AM)

Minha relação com a escrita deu-se primeiramente em casa. Meu pai, maranhense, guardava um livro de um escritor, conterrâneo seu, chamado Viriato Correia.

Todos os filhos, assim que eram alfabetizados, recebiam de papai aquele livro amarelado, autografado pelo próprio autor. Papai sentia muito orgulho daquele exemplar, não sei se era porque o autor também era maranhense ou se porque tinha uma dedicatória para ele. Normalmente, com ar grave, perguntava se nós já conhecíamos as letras e entregava, de forma solene, o livro.

Foi numa tarde de mormaço, eu deveria ter oito anos e estava brincando com minha irmã caçula. Ele se aproximou, do mesmo modo com que fazia com os demais filhos e perguntou:

- Ana, você já sabe as letras?

Percebi, surpresa, que tinha chegado a minha tão esperada hora. Iria ler o Cazuza, o livro do amigo de meu pai. Era assim como nós chamávamos o livro.

Respondi prontamente:

- Sim, pai, eu já sei!

Ele me olhou todo orgulhoso e disse:

- Então toma, leia. É de um amigo meu, lá do Maranhão. E veja se não vai perder ou estragar o livro, hein!

Peguei o livro, ainda incrédula e balancei a cabeça, num gesto de sim meio assustado. Parei a brincadeira com a minha maninha e fui para a rede ler. No começo, pensei que Cazuza fosse o nome do amigo do meu pai, mas vi que era o nome do livro mesmo.

Folheei as páginas, vi figuras, títulos, cheirei o livro que tinha um cheiro bom! (lembrei-me agora do relato do Ubaldo). Comecei a leitura naquela tarde de mormaço em Manaus e não me lembro mais até que horas fiquei a ler aquelas histórias ora encantadoras, ora tristes, ora hilárias.

Chorei pela primeira vez ao ler a história do Pata-Choca, menino órfão, acometido de verminoses, que apanhava do pai, em casa, porque não sabia ler nem escrever. E levava bolos de palmatória da professora, na escola, porque não fazia as tarefas e dormia na sala.

Ri com as ­­­­­­histórias das brincadeiras dos meninos de interior, das corridas com os carrinhos de rolimã, as fugas para a lagoa. Nossa, como eu viajei para tão longe naqueles dias! Não aceitava que o livro chegasse ao fim e o li pela segunda vez, para ver se não encontrava mais algum detalhe do qual tivesse passado despercebido. Antes de devolvê-lo ao meu pai, decidi ler pela terceira vez, agora para minha irmã caçula, de seis anos.

Se foi pelo meu pai que descobri a leitura, foi com a ausência dele que despertei para a escrita. Era agosto de 1985, véspera do Dia dos Pais. A professora de Língua Portuguesa pediu que escrevêssemos uma redação sobre a importância do pai para a família. Eu era novata na escola e ela não sabia que meu pai tinha morrido. Como fiquei com vergonha de perguntar se poderia escrever mesmo não tendo mais pai, resolvi fazer a redação.

Ainda com o coração apertado, escrevi que não saberia dizer por que um pai era importante, pois o meu morrera. Mas poderia dizer qual era a falta que um pai fazia na vida de uma família. Escrevi sobre o Natal em que vi minha mãe pelos cantos, a chorar a falta dele. Falei da comida que ficara escassa em nossa mesa. Da mamãe trabalhando como professora em três turnos para criar seis filhos. Falei dos planos interrompidos, da casa que ficara pela metade, ainda em construção. E falei das histórias que, vez por outra, ele contava para gente, enquanto mamãe não chegava da escola.

No dia da entrega da nota da redação, a professora me chamou em particular, à mesa dela, para me dar uma bronca. Disse que não pedisse mais para um adulto fazer a minha redação e que isso estava errado. Fiquei tão indignada! Não sei como consegui, eu só tinha dez anos, mas lhe disse que ela passou um trabalho sem se preocupar em perguntar se alguém não tinha pai. Disse que eu mesma tinha escrito, porque, embora não soubesse mais o que era um pai, eu sabia e sentia a falta dele.

Primeiro, ela me olhou assustada. Depois, com os olhos cheios de lágrima, disse que eu não escrevia mais como uma criança. Voltei para casa, nesse dia, toda orgulhosa, achando que tinha recebido um baita elogio, pois se não era mais criança, então só poderia de ser adulta!

Hoje compreendo, nos olhos cheios d’água de minha professora, a tristeza de ver uma infância acabar tão cedo. Não sinto mais orgulho, só tristeza e saudades de meu pai.

22 thoughts on “Eu, a leitura e a escrita

    1. Textos que tocou-me profundamente! A riqueza de cada palavra, faz-nos deleitar na leitura como se fizesse parte da nossa história.

  1. Sou uma apaixonada pela leitura, desde muito cedo gosto muito de ler.Tenho paixão pela linguagem, acho a coisa mais maravilhosa a forma como os escritores trabalham com as palavras. Adorei esses relatos.

  2. Que linda história!! Bem parecida com a minha, e hoje só sinto saudades do meu pai querido.
    E essa menina que se tornou a adulta através da sua escrita!!!

  3. Seja por prazer, seja para estudar ou para se informar, a prática da leitura aprimora o vocabulário e dinamiza o raciocínio e a interpretação. Além de favorecer a aprendizagem, melhora a escrita.

  4. A história que trouxe lágrima aos olhos de sua professora, trouxe aos meus e tenho a outros que por ventura tenham lido. Não ser triste, mas por ser bastante comum, a maioria dos professores não veem seus alunos, apesar de fitar-lhes olhos diariamente. O livro é mais importante do parece! Fui alfabetizada aos seis anos por meu pai, mas mim lembro-me que meu pai comprou para meu irmão mais velho o livro usado “Nosso Tesouro” de garoto que estudara na cidade e lia para a um poema Meus oito anos. Hoje trabalho na Secretaria Estadual de Educação e reconheço que o livro, por mais antigo que seja o é realmente um tesouro.

  5. Meu contato com a leitura iniciou com a ajuda de minha mãe nas embalagens das compras: pacotes de arroz, farinha de trigo e tudo que chegava escrito

  6. Boa noite, queridas.
    Fiquei deveras emocionada com os dois relatos. Senti o coração apertada, a garganta seca…para então perceber como a leitura nos socorre. Li em voz alta e vou pedir permissão para poder ler para meus alunos do 5º ano, quero que sintam esse prazer, esse recomeçar… – Grata, por compartilhar.
    Com carinho,Anna.

    1. Oi, Nanci!
      Nossos alunos têm muita historia para contar e escrevem bem sim. Precisamos apenas motiva-los e ajudá-los um pouco com a linguagem formal, mediando quando necessário.

  7. Gosto muito de ler relatos sobre experiências com leitura e escrita e, assim como Vanusia Amorim Pereira dos Santos de Maceió (AL), só voltei a me interessar pelo ato de escrever sem obrigação na faculdade, pois a leitura sempre foi minha paixão favorita. Os dois relatos são enriquecedores para quem os lê e posso dizer que em minha mente passou vários flash back!
    Parabéns colegas de profissão!

  8. Essa crônica de sua historia de vida ainda perpassa nossas salas de aulas… porem com ausencias familiares sofridas por nossos alunos. E muitos deles não conseguem fazer a transição de faixa etária com serenidade, como você fez. lindo texto! Emocionante!

  9. Adoro ler relatos sobre experiências , emocionei-me com o texto de Ana Maria Lucena. O despertar pela leitura deve iniciar na educação infantil, se os pais não fazem isso em casa ,nós professores temos que ler para nossos alunos, só assim eles irão despertar para esse mundo maravilhoso que e a leitura.

  10. Amei todos os textos!! Histórias lindas que deixaram marcas profundas, ora de alegria ora de tristeza. Parabéns aos autores.

  11. Adorei os dois relatos! Me vi aos 6 anos quando ainda morava no interior com meus pais e irmãos.
    fui alfabetizada por minha mãe com as embalagens de bombril, açúcar, em fim todas as embalagens
    que chegavam em casa. Amei!!!!!

  12. Adorei os dois relatos! Me vi aos 6 anos quando ainda morava no interior com meus pais e irmãos.
    Fui alfabetizada por minha mãe com as embalagens de bombril, açúcar, em fim, todas as embalagens
    que chegavam em casa. Amei!!!!!

  13. Muito emocionante seu relato, triste por ter perdido seu pai, mas as lembranças que ele deixou vão estar sempre em sua memória. Pode ter certeza li duas vezes para ver se realmente eu tinha compreendido sua história. Quando você diz que a professora nem ao menos perguntou se você tinha pai esse é um erro que muitos cometem em sala de aula, é a velha história tenho que conhecer o meu aluno e sua história de vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *