Eu, a leitura e a escrita

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28 novembro 2018

 

Minha mãe, minha heroína

Luana da Mota Santos

Itabaiana (SE)

Tenho muitas lembranças da minha infância, a figura da minha mãe, mulher guerreira, de fibra e suas histórias estão entranhadas em mim. Ela costumava repetir que eu sempre gostei de estudar, que ainda criança, sem idade para frequentar a escola, queria acompanhar todos os estudantes que passavam pela frente de minha casa, para evitar que eu fugisse, minha mãe tinha que manter o portão sempre fechado.

Ela mal sabia ler e escrever, mas dominava a matemática como ninguém, fazia contas dificílimas de cabeça e numa rapidez impressionante. Tinha uma vontade extrema de ler fluentemente, algumas vezes ainda estudante tentei ensinar a ela o domínio da leitura, mas não consegui. Talvez aí tenha surgido o interesse pela minha profissão. Minha mãe parou de estudar na antiga 5ª série, hoje 6° ano do ensino fundamental. Ela sempre relatava que certa vez tinha ficado de castigo na escola porque na hora da lição não conseguia soletrar a palavra papagaio e como punição teve que escrevê-la diversas vezes.

 

 

Toda essa narrativa tem um propósito. Eu nunca presenciei minha mãe lendo, ela não me contava histórias na hora de dormir, a leitura não fazia parte da vida dela, mas, sem sombra de dúvidas, ela me influenciou e muito. Todas as vezes que ela me pedia para ensiná-la a desvendar os mistérios da leitura e escrita, quando dizia que achava lindo quem sabia ler, que se ela tivesse um diploma sua vida teria sido diferente, que a maior herança que ela deixaria pra mim seria o estudo e quando iria ajudá-la nos serviços domésticos, ela dizia para eu largar a vassoura e pegar um livro. Eu quis ser o orgulho dela e acredito que fui. No ano de minha formatura, descobri que minha mãe estava muito doente, aquela mulher forte, que nunca reclamava de nenhuma dor, estava definhando, e muitas vezes internada num leito de hospital repetia que morreria feliz porque estava realizada, sua filha estava formada, agora professora de Língua Portuguesa. Vá entender o destino...

Além de minha mãe, tive professores que me incentivaram a ler, até hoje tenho comigo livros paradidáticos que li em minha adolescência. “A turma da rua quinze”, “Vale das vertentes”, “Nas asas do destino” e “Inocência” são algumas obras, ou melhor, relíquias, que fazem parte do meu acervo até hoje. No ensino médio, o clássico que mais me marcou foi “Senhora” de José de Alencar, aquela história de amor e de vingança me prendeu de um jeito que não sei explicar. Hoje tenho paixão por Machado, Clarice, Graciliano, Guimarães Rosa, dentre outros.

Ultimamente tenho me dedicado à leitura de autores mais contemporâneos e/ou até mesmo locais (autores sergipanos), pois trabalhar com adolescentes requer de nós novas práticas, novos hábitos, tudo para atrair esse público atual, os chamados nativos digitais. Espero poder incentivar meus alunos assim como fui incentivada, quem sabe um dia serei lembrada como a professora de português que abriu novos horizontes através da leitura e escrita de diferentes gêneros textuais.

 

O mundo tem o tamanho da palavra

Rogério Dias Micheletti

São Paulo (SP)

Sem grandes ou emocionantes narrativas. As letras entraram em minha vida sorrateiras, sutis, quase um eufemismo do mundo para mostrar como o mundo é tão grande.

Com os olhos sempre curiosos, ainda bem antes de aprender os significados das letras admirava o meu pai enquanto ele lia seu jornal e, sempre que íamos à casa de minhas tias de trólebus, não perdia a oportunidade de pedir para que ele decifrasse para mim as palavras impressas nos cartazes ao longo do caminho.

Como me encantava tanto sentido saindo daquelas palavras coloridas em anúncios sem qualquer importância rapidamente decifrados por meu pai.

Logo, houve a separação, e o encantamento foi-se embora também. Minha mãe não sabia ler e estava sempre muito ocupada com trabalho e contas a pagar.

Passei então a passar os olhos por histórias em quadrinhos adivinhando as narrativas. Não só pela ausência paterna, meu mundo ficava cada vez maior e sentia que desapareceria nele a qualquer instante sem que ninguém notasse até que comecei a frequentar o prezinho. De Quichutes brancos nos pés, shorts e boné vermelhos, uma lancheira colorida com estampa de herói com alguns biscoitos e frutas lá, estava eu pronto para me aventurar entre rabiscos coloridos e o b + a = ba pelo mundo que se partira.

Não demorou muito para que eu “entrasse surdamente no reino da palavra” como muito mais tarde sugeriria o poeta. Daí por diante passei a não mais imaginar as narrativas mas sim a lê-las com afinco todos os dias e, assim, percebi o quanto o mundo poderia ser na verdade bem pequeno.

Já nos primeiros anos de escola no ensino fundamental passei a escrever minhas história, às vezes, gostava de escrever poesias também. Brincar com as palavras era meu passa-tempo predileto. A palavra era meu brinquedo predileto.

Não tardou até que eu percebesse que além da leitura e escrita estava só. Sem amigos para brincar seja lá do que fosse. Sem ninguém para fazer de mim um alguém.

Outra vez o mundo ficou tão imenso.

Mais tarde, já no ensino médio, as aulas de literatura, ou o professor de literatura com toda sua paixão pelo que fazia, com todo o prazer com que falava sobre os autores e suas obras, devolveu-me uma vez mais um mundo perdido que agora se desdobrava num universo. Já não mais escrevia, a não ser tímidos poemas incompartilhados, versos que sempre guardava só para mim pelo simples prazer de ter reencontrado o brinquedo favorito de infância.

Não deu outra. Já adulto busquei formação em letras. Estava decidido a tornar-me professor de língua portuguesa e literatura e, quem sabe – grande pretensão -, tornar-me o herói da narrativa de algum menino que perdera seu brinquedo ou, ainda, ensinar alguma criança que seu mundo pode ser tão grande quanto for o tamanho de suas possibilidades de criar e encontrar os sentidos possíveis dos textos.

Hoje sigo brincando com as palavras mas, sobretudo, para ensinar outros a brincarem ou a inventarem seus próprios brinquedos sem me preocupar mais em ser o herói de alguma narrativa mas, com forte anseio por ver meus alunos tornarem-se eles mesmos os protagonistas em suas narrativas e que sejam elas sempre cheias de muita aventura e alegrias.

Quem sabe um dia não me debruço sobre uma dessas histórias e descubro ainda outros universos particulares criados pelo poder da escrita e seus muitos significados ressignificando cada um de nós sem que sequer nos demos conta disso.

17 thoughts on “Eu, a leitura e a escrita

  1. Muito interessante esta história. Temos que realmente incentivar nossos filhos, alunos a lerem,pois através da leitura podemos ter cada vez mais fluência, viajar por muitos lugares.

  2. Quem lê, poderá sempre ter novas possibilidades de enxergar o mundo. A leitura é minha maior aventura, por meio dela eu me encontrei e consegui perceber com outras perspectivas o mundo em que vivi e o mundo em que vivo agora.

  3. Luana da Mota Santos e Rogério Dias Micheletti compartilham suas memórias relacionadas à leitura e à escrita que imediatamente nos aciona lembranças importantes dos nossos próprios percursos como leitores e escritores. Mais do que lembranças, o que fica é a a emoção do vivido e elaborado, do desejo de que outras pessoas de todas as idades acessem todas as possibilidades desse mundo da palavra escrita. Num país de não leitores, de leitores com baixa proficiência para a construção dos sentidos dos textos, há muito trabalho a ser feito pelos bons professores.

  4. Muito bom os textos, pois ambos nos leva a refletir sobre a nossa infância!
    Parabéns aos professores que compartilharam suas experiencias de vidas com nos leitores.

  5. Realmente ler é fascinante e nos faz bem recordar, imaginar ir muito além, e quando somos influenciados positivamente, isso nos marca por toda a nossa existência, e quando influenciamos alguém é gratificante ver resultados e compartilhar.

  6. LENDO O TEXTO PERCEBI QUE AS MEMÓRIAS QUE A GENTE TEM DE INFÂNCIA OU ATÉ DE DIAS ATUAIS QUE TE MARCAM OU TE FAZ FELIZ,SÃO DE SUMA IMPORTÂNCIA PARA O SEU CRESCIMENTO PESSOAL.E QUE ATRAVÉS DA LEITURA VOCÊ PODE ATÉ REVIVER TUDO ISSO!

  7. No momento estou escrevendo uma tese de Doutorado das concepções da aprendizagem que ressalta o quão importante são as interações entre sujeito e objetos para a aprendizagem , no caso leitura e escrita, como mencionado o leitor tem que se apropriar do texto, a leitura e escrita são a ponte para o processo educacional eficiente, proporcionando a educação integral do indivíduo.(Martins, 2003)
    att.
    Dr. ando, Alderlan Cabral

  8. Emocionada ao ler o texto da autora Luana da Mota Santos. Que seja sim lembrada por uma professora importante é que seja memória na vida de um aluno. Lindas palavras.

  9. Boas narrativas, capazes de nos levar para dentro da história para as observarmos de perto. São histórias muito próximas da realidade dos meus alunos. Já que na primeira, temos uma protagonista, filha de uma pessoa analfabeta, mas que valoriza a educação, pondo na filha o anseio pelo conhecimento. E na segunda, uma criança, filha de pais separados, que cresce com a mãe analfabeta, que por conta de suas muitas tarefas tem pouco tempo para o filho. O filho (re)encontra refúgio no mundo das palavras. Textos assim, ligados a realidade dos alunos, acabam por cativa-los mais.

  10. O relato da professora Luana me reporta fortemente para a minha infância e a influência de minha mãe para aprender a ler e escrever, algo tão sonhado e felizmente, idealizado em seus filhos! Sou grata a ela pela motivação constante para estudar, aprender e ser professora! Ela sempre desejou ter uma das filhas professora! Hoje, como docente de Língua Portuguesa, estou convicta de que não me identifico tão bem com nenhuma outra área! Incentivo regularmente meus alunos para a prática da leitura e da escrita e sei da grandiosidade do desenvolvimento dessas habilidades para o exercício da cidadania nesse mundo letrado e exigente!

  11. EU ME LEMBRO, QUE NO MEU TEMPO DE CRIANÇA, NÃO TÍNHAMOS DE ESTUDAR, SÓ TRABALHO NA LAVOURA. COM PASSAR DOS TEMPOS COMECEI A ESTUDAR NA ESCOLA RURAL, DEPOIS FUI PRA CIDADE PARA CONCLUIR OS ESTUDOS.NA ÉPOCA FIZ 4 ANOS DE MAGISTÉRIO.NISSO JÁ FAZ 16 ANOS DE CAMINHADA.
    EU GOSTO MUITO DE LER, LEIO LITERATURA, ROMANCE, AVENTURA NAS HORAS VAGAS.

  12. A infância é uma fase inesquecível, durante a qual acontecem coisas engraçadas e comoventes. Brincadeira, estudos, trabalho. Meus pais eram analfabeto, sempre morei com pessoas que não era da família. Trabalhei e estudei com meus próprios recurso, sempre gostei de ler, esse curso foi um aprendizado para mim como professora.

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