Escritas de si em diálogo: um trabalho com o gênero diário


 

 
Leia, abaixo, um breve artigo sobre a trajetória de Carolina Maria de Jesus e saiba como sua escrita foi capaz de inaugurar uma tradição literária que dá voz a mulheres negras e pobres no Brasil e no mundo. Ao longo do material, você encontrará algumas palavras, expressões ou termos marcados em verde. Nesses casos, basta clicar para ver informações ou referências adicionais.

Clique aqui e acesse também uma sequência didática que trabalha o gênero diário a partir da obra de Carolina e outras autoras influenciadas por ela.

Eduarda Ribeiro Rodrigues

 

Carolina: uma história a ser contada

 
Nos últimos anos, a trajetória de Carolina Maria de Jesus teve grande repercussão, tanto no setor educacional — várias escolas, cursinhos populares e movimentos sociais receberam seu nome, além do aumento da discussão em torno da sua obra em sala de aula — quanto no cultural. A exposição “Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros", foi a mostra mais visitada no Instituto Moreira Salles em 2021. Em 2022 a escritora foi tema do .

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Abre caminhos, minha história vou contar
Sou eu, Carolina de Jesus
A voz da pele preta a ecoar
Bitita! Livre feito uma borboleta
No quilombo de força e coragem
Há fome de esperança e igualdade
Menina! Poema de asfalto à luz do luar
Em casa de madame pra ganhar o pão
Sonhos escritos não foram em vão

Lá vou eu pra batalha, não tinha o que comer
Fiz verso fiz poesia retratando o meu viver
Quando cheguei em São Paulo sem rumo, sem renda
Falei de justiça pra que o mundo entenda

Extra! A negra enriqueceu
Sou eu… A mãe preta resistência
Bordando em meu quarto sentimentos
Mazela que reflete a consciência
Nas folhas de caderno a verdade se traduz
Em meu sobrenome uma prece, Jesus
Ser a Cinderela do meu Canindé
A flor mais bela, quem é que não quer?!
Vencer o preconceito, lutar é nosso direito
Não duvide da bravura da mulher

Samba da favela, nega batucada
A Colorado é a voz da emoção
Um grito de coragem pra cantar o amor
Respeita a minha cor

 

 

Mas afinal, quem foi Carolina Maria de Jesus?

 
Em 1914, nasceu Carolina Maria de Jesus na pequena cidade de Sacramento, sul de Minas Gerais. O Brasil, que em maio de 1888 aboliu a escravidão e em novembro de 1889 substituiu um regime monárquico pelo republicano, mantinha características de um passado escravista, revelado na desigualdade racial e social. Na sua infância, Carolina Maria de Jesus conviveu com pessoas que foram escravizadas, por exemplo, o seu avô, a quem chamava de Sócrates Africano. A pequena , apelido que recebeu quando criança, cresceu rodeada de pobreza, analfabetismo, racismo e violência de gênero.

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Segundo pesquisa realizada pelo jornalista Tom Farias, a palavra bitita é originária do termo feminino “mbita”, da língua xichangana, falada em Moçambique, ou “bita”, em corruptela, que significa “panela de barro”, induzindo a pensar que, como atesta o Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa, o “diminutivo feminino singular desse termo gera a palavra “bitita”. Portanto, “bitita” (apelido de infância da escritora) é designativo de algo vindo do barro, cuja cor é ocre ou preta.
 
Fonte: https://revistaperiferias.org/materia/carolina-maria-de-jesus-uma-escritora-presente/

Na obra autobiográfica “Diário de Bitita”, a partir da escrita de Carolina Maria de Jesus mais velha, temos o privilégio de ler o que ela escreve sobre si e como se vê, o que rememora e como revive a encenação de seu e outros corpos em seus múltiplos papéis, quais são as marcas históricas e sociais de sua temporalidade.

A escrita de Carolina retrata as relações vividas em seu cotidiano. Nele podemos observar uma disputa do espaço de seu corpo negro na sociedade, uma luta entre o “lugar natural” ao qual estava destinada pelas marcas sociais e econômicas do pós-abolição e o “lugar não-natural” ao qual desejava e buscava estar. Na sua narrativa é possível notar uma conexão contraditória e dialética entre o Dominante (adultos, homens e brancos) e o Dominado (criança, mulher e negra). Porém, essa contraposição não ocorre somente em termos abstratos, mas também de forma real na luta diária de Bitita contra as múltiplas facetas das opressões que a cercam.

Carolina nos apresenta uma Bitita sedenta por conhecimento, sobre si e sobre o mundo. Diante da sua realidade ela questiona à mãe se ela é bicho ou gente. Contudo, não fica satisfeita em saber o que é, precisa descobrir também quem ela é dentro do mundo: mulher ou homem? Nessa primeira impressão, os homens eram figuras fortes e provedoras e as mulheres fracas, e ela não queria esse lugar. Com o passar do tempo, Bitita percebe que as mulheres podem ter tanto poder quanto um homem, afinal ouviu durante uma festa junina a história de uma mulher com poder de mandar um rei cortar a cabeça de , de quem todos falavam.

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(JESUS, 2014, pg. 27)

No entanto, Bitita percebe que seu corpo além de ser percebido por ela e por outros como mulher, também tem outra marca social, a negritude, permeada por uma pobreza histórica. Mesmo nesse lugar, a menina não se cala e enfrenta até mesmo um para defender aquilo em que acredita, sendo chamada de “negrinha atrevida” por ter coragem de expor os abusos sexuais que o filho dele cometia contra as meninas do orfanato.

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(JESUS, 2014, pg. 33)

Toda essa determinação e curiosidade levaram a menina a ir além de todo imaginário pensado e possível para a sua realidade. Aprendeu a ler e escrever desde pequena, era questionadora e corajosa, características que lhe renderam a fama de “louca” e a levaram para cadeia bem novinha.

O jornalista Tom Farias, ao falar de Carolina Maria de Jesus, ressalta que ela teve a sua jornada associada à desordem social, pois não aceitava para si o rumo de vida orientado pelos outros. Isso fez com que ela se tornasse uma peregrina, com longas andanças a pé de cidade em cidade, em busca de alimento e de dignidade.

Em 1937, decide migrar para a cidade de São Paulo, depois de viver por mais de vinte anos em Sacramento. As razões para a migração são muitas, mas as dificuldades em conseguir trabalho, uma saúde instável e sua insatisfação com a própria vida fizeram com que decidisse tomar o rumo de uma cidade que era desejada e temida, mas que para Carolina poderia significar um recomeço.

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(CASTRO e MACHADO, 2007)

Na cidade de São Paulo, além das marcas sociais de "mulher" e "negra" que Carolina representava, foi acrescentada a de “favelada”. Foi na favela do Canindé que o seu livro mais famoso foi escrito. , lançado pela primeira vez em 1960, tornou Carolina uma das escritoras com maior número de vendas, no ano, no Brasil e com grande repercussão internacional.

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Quarto de despejo é o livro mais famoso da Carolina Maria de Jesus, mas não é o único. Leia também:
 
- Diário de Bitita
- Casa de Alvenaria
- Meu estranho diário
- Antologia pessoal
- Meu sonho é escrever

O livro se tornou um best-seller traduzido para 16 línguas e vendido em mais de 40 países, entre eles a França. A revista francesa Paris Match publicou uma matéria sobre a escritora brasileira e seu livro, revista que tinha como leitora fiel a antilhana Françoise Ega, mulher negra e trabalhadora doméstica que, como Carolina, escrevia e sonhava em ter seus textos publicados. Françoise Ega sentiu-se profundamente tocada por Carolina Maria de Jesus, ao ponto de criar um diálogo com ela em sua obra , na qual ela escreve cartas para a brasileira, cartas que nunca foram entregues. Em maio de 1962, em seu primeiro texto para Carolina, Françoise diz:

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A obra de François Ega, publicada pela Editora Todavia, foi selecionada para o PNLD 2021 e poderá ser escolhida pelas escolas de todo o Brasil para compor o acervo das Bibliotecas e Salas de Leitura. No site da editora Todavia há excelentes materiais de apoio para desenvolver o trabalho com a obra em turmas de Ensino Médio. Confira!
 
https://todavialivros.com.br/pnld2021/cartasaumanegra

Pois é, Carolina, as misérias dos pobres do mundo inteiro se parecem como irmãs. Todos leem você por curiosidade, já eu jamais lerei; tudo o que você escreveu, eu conheço, [...]

Apesar de chamar os seus textos para Carolina de cartas, Françoise cria uma espécie de diário no qual narra o seu dia a dia como trabalhadora doméstica. Através dos seus textos é possível ter uma ideia de como era ser uma mulher negra e pobre vivendo na França.

12 de abril de 1963
No primeiro dia de trabalho na casa da patroa, trouxe comigo uma marmita. Ela disse: “Não precisa de uma marmita, aqui não é uma cantina! Sempre haverá algo para comer!”. Assim, no dia seguinte, não levei nada de casa para o almoço. A patroa disse aquilo, mas seu marido olhou para mim de pé, com meus setenta quilos bem distribuídos, e disse: “Essa mulher deve comer feito um animal!”. Ao ouvir a frase, perdi o apetite e, de noite, voltando para casa, senti meu estômago roncar, pois tinha hesitado em comer direito.
25 de novembro de 63
Rapidamente terminei de limpar a casa e fui visitar a velhinha querida. Ao notar minha presença, ela exclamou:
“Chegou a minha martinicana!”
Enfim, houve progresso, ela não disse a “negra”. Tirei o pó de todas as peças enquanto ela me falava o que tinha feito em La Roque-d’Antherón durante sua estada, também me contou sobre Beaucaire, Sisteron e Miramas, onde os netos dela moram. E pela centésima vez lhe descrevi a casa da minha mãe e as árvores que a rodeavam. O que ela não entende de jeito nenhum é que os invernos nunca chegam lá; por ela, tento esquecer que outras mulheres de olhos azuis têm o coração sombrio.

Ao desafiar a realidade a sua volta e escrever com os poucos recursos que estavam à sua disposição, ou seja, em cadernos velhos encontrados no lixo, Carolina instaura uma nova tradição na literatura. Não eram só homens e mulheres brancas que podiam escrever, uma mulher negra e favelada também poderia.

Nascida há 108 anos, Carolina segue emocionando e influenciando a escrita de mulheres negras. Mesmo sendo uma escrita única, as palavras de Carolina representaram e seguem representando inúmeras mulheres, como é o caso das escritoras do livro Carolinas, lançado em 2021. Em comemoração aos 60 anos de publicação de Quarto de Despejo, a Festa Literária das Periferias- FLUP criou um processo de formação de escrita, para o qual se inscreveram mais de 500 mulheres. Esta edição do projeto FLUP – “Pensa, uma revolução chamada Carolina” foi destinada exclusivamente a mulheres autodeclaradas negras. O evento contou com mulheres de norte a sul do país, algumas ainda alunas do Ensino Médio, outras já aposentadas, e não só do Brasil, mas também da Europa e África. Todas essas mulheres, além da cor, têm em comum Carolina Maria de Jesus como precursora e inspiração. Como resultado desse processo, foi lançado em 2021 o livro , escrito pelas mãos de 180 mulheres.

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O livro Carolinas: a nova geração de escritoras negras brasileiras foi escrito a partir de formações que tiveram início no dia 12 de maio de 2020 e foram até o dia 19 de agosto do mesmo ano (aniversário de 60 anos da publicação de Quarto de Despejo). As mulheres negras que escreveram o livro são de diversos lugares do Brasil e foram selecionadas a partir de cartas enviadas à Carolina. As mais de duzentas escritoras foram divididas em oito grupos por ordem alfabética. Os grupos foram orientados por escritora(e)s que tiveram liberdade para propor abordagens diferentes para a criação de textos para o livro. Ana Paula Lisboa e Fred Coelho escolheram o gênero diário, sendo que ele sugeriu a escrita de um diário coletivo feito através de encontros semanais e ela um diário em que as mulheres narrassem suas próprias experiências, ou mesmo que ficcionalizassem, mas sempre na primeira pessoa.

 

 
Carolina Maria de Jesus, em suas obras, mostra que não existe ninguém mais preparado para escrever sobre nossas vivências do que nós mesmos. É hora de trabalhar com o gênero diário em sala de aula, apresentar as obras citadas no texto e propor a turmas de estudantes que escrevam sobre o seu dia a dia.

 


Sobre a autora

Eduarda Ribeiro Rodrigues é graduada em História pela Universidade Nove de Julho. Atualmente, é graduanda do curso de Letras Português/ Francês pela Universidade de São Paulo.

 

 

12 thoughts on “Escritas de si em diálogo: um trabalho com o gênero diário

  1. Sofrimento e alegria; derrota e vitória; belezura e feiura; riqueza e pobreza; preto e branco; …, que cor? Penso que tudo são convenções humanas, modos de sentir o que a monstruosa ditadura nos impõe sentir. A vida vale a pena se alma não for mesquinha e pequena ao atrever-se voar acima das convenções impostas. Para acima e além do imaginário da dor existe um jardim florido e encantador, onde se pode ser feliz, livre das cadeias de aço tecidas pelos senhores que aprisionam no tronco da grande senzala humana. A casa grande dos senhores também é senzala, senzala de outra geografia, de outra sociologia, de outra cor, de outro gemido, de outra dor…

  2. Que texto incrível e absurdamente importante na afirmação de que nós, negros, e principalmente nós, mulheres negras, derrubamos qualquer barreira a fim de conseguirmos nosso espaço de respeito e admiração dentro da sociedade que ainda hoje persiste em tentar nós afugentar da autonomia e posição de destaque. Bitita a mulher a qual podemos nos inspirar e usar de exemplo em todos a gerações presentes e futuras. Ótimo texto!!

  3. Texto importante para entendermos mais a trajetória de Carolina Maria de Jesus. Li Quarto de Despejo e desejo ler os outros livros indicados.

  4. Uma pessoa importantíssima para a história brasileira, a Carolina Maria de Jesus! Chocado como muitas figuras históricas, principalmente mulheres, são apagadas das narrativas mostradas em sala de aula… texto super necessário! Incrível!

  5. Muito importante lembrarmos e falarmos sobre o Diário de Bitita, pois esta obra revela bem o Brasil.
    Excelente introdução!

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